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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Orgulho Amarfanhado

De repente fui me dando conta de que estava me tornando amargo. A cada nova notícia sobre o Petrolão, sobre a compra do Congresso através da liberação de verbas para aprovação do enterro da Lei de Responsabilidade Fiscal, sobre os números da economia, meu sentimento de indignação ia se transformando em descrença e desesperança. Dei-me conta de que boa parte de meus posts na rede social saía recheado de deboche e de cinismo. Enfim, estava me tornando um chato.

“Mas, espera lá! Como assim?”, disse para mim mesmo. Depois do raio de esperança que nos deu o julgamento do Mensalão, com a condenação e prisão, ainda que fugaz, dos que escarneceram da Nação, estaria sendo decretada a derrota da esperança? Seria a vitória da cara de pau e da malandragem? Era o aniquilamento definitivo da honestidade e da decência? A instauração da ditadura do vale tudo? É o que parece, ou parecia.

A amargura que me varava o coração sinalizava como sendo a prova irrefutável de que começávamos a acreditar que era assim mesmo. Já achava que os que deixavam o Brasil em busca de um horizonte mais ameno é que estavam, afinal, com a razão.

Mas eis que um amigo músico norte-americano de nascimento, mas que vive no Brasil desde os quinze anos, nos convida para um almoço. Outros convivas foram um fotógrafo francês e um coreógrafo também americano, mas criado na Suíça, além da namorada portuguesa de meu amigo. Todos os mancebos radicados no Brasil há muitos anos. (Minha mulher disse depois que o almoço com pessoas tão exóticas tinha sido muito interessante, mas me pareceu que os exóticos ali éramos nós, os únicos assalariados e com emprego fixo).

Conversa vai, conversa vem, regada por algumas taças de vinho, e lá pela sobremesa o assunto acabou nos acontecimentos recentes das páginas político-policiais dos jornais virtuais e impressos. Já estava me preparando para defender o meu combalido país, como quem defende o amigo bêbado que mexeu com a mulher do outro, muito mais por lealdade que por sentimento de justiça, quando fui surpreendido por declarações de amor incondicional a essa nossa terra tão violentada por seus próprios filhos ingratos. Descobri que, dos três, um já é naturalizado brasileiro e os outros dois aguardavam ansiosamente a aprovação de seus pedidos de cidadania brasileira. Como assim, meus amigos, como assim?

E foram estes três brasileiros, não por nascimento, mas por amor e por opção, que resgataram da sarjeta meu orgulho amarfanhado e encardido de ser brasileiro. Lembramos então de Tom Jobim que, tendo experiência cosmopolita, definiu de forma magistral e definitiva a questão: “Viver no primeiro mundo é ótimo, mas é uma merda; já viver no Brasil é uma merda, mas é ótimo”.

Então, meus amigos, decidi. Este país é lindo, é caloroso, é alegre, é rico. E é meu, é nosso. Assim como não saberia torcer por outro time caso meu Tricolor se acabasse (e Deus sabe como isso esteve perto de acontecer), também não saberia viver nem torcer por outro país. Decidi que não vão derrotar minha esperança, não vou deixar que o escárnio de maus brasileiros, que não merecem a terra onde nasceram, acabe com o orgulho que tenho do Brasil e da maioria de brasileiros honrados, decentes, honestos e trabalhadores. Tirem as mãos do nosso país! Não desistiremos.

E amanhã a alegria sairá dos becos e desfilará triunfal na Avenida, apesar de vocês.


(Obrigado Bruce, Bruno e Steven)

domingo, 19 de outubro de 2014

Carta a uma jovem eleitora

"PT e PSDB são da mesma família, e brigas em família
são as piores." (Eduardo Jorge)
Tenho grande respeito pelas suas posições e de tantos outros eleitores de Dilma, principalmente no que se refere ao ideal de reduzir as diferenças sociais entre os brasileiros. Olhando retrospectivamente estes últimos 20 anos de Brasil: o governo FHC foi fundamental para debelar a grave crise econômica em que vivíamos antes do Real, e lançou as bases das políticas sociais que Lula e o PT tão bem aprofundaram e disseminaram. O Brasil deve muito aos dois governos. Lula teve o bom senso de manter as boas práticas econômicas do PSDB (Dilma nem tanto, e isso é um problema que começa a ficar evidente; mas esse não é o problema principal). Tenho certeza que, assim como Lula seguiu numa boa trilha econômica, um eventual governo de Aécio Neves vai manter e, assim espero, ampliar as ótimas políticas de inclusão social do PT, pode ter certeza disso e dormir tranquila (eu não perco o sono com a possibilidade de uma vitória de Dilma). 

Concordo que entre os eleitores de Aécio estão muitas pessoas com posições políticas das quais eu discordo veementemente. Por exemplo, os que são contra o Bolsa Família, os que têm desprezo pelos mais pobres, os preconceituosos de todo tipo (de cor, de orientação sexual, os fanáticos religiosos, etc). E os que falam com saudades de um tempo de ditadura militar, vixi! Esse é um ponto central para mim, a Democracia. Sempre conversei e alertei meus filhos sobre a supremacia dos princípios da Liberdade e da Democracia (assim com letra maiúscula mesmo) sobre todos os demais, pois sem eles, nenhuma outra boa intenção prospera. Embora o discurso seja de que, se necessário para a execução de um "governo popular", a Democracia possa ser relativizada, quando não sacrificada. Desnecessário lembramos do exemplos de nossos vizinhos Venezuela e Cuba, países em que ditaduras explícitas ou disfarçadas, teoricamente bem intencionados a princípio (vamos acreditar assim) estão impondo sacrifícios materiais enormes à população, perseguindo as vozes discordantes, afugentando os investidores e empobrecendo seus países e seus habitantes. 

Esse é ponto central para mim. Boas intenções não prosperam quando a democracia balança. Um ambiente de plena democracia é essencial para que a população se sinta encorajada a investir, criar negócios, dar empregos, arriscar suas poupanças em sonhos de melhoria de vida. 

Existem políticos e eleitores que não priorizam as liberdades democráticas tanto à esquerda como à direita e eu deploro todos eles. Deploro aqueles que, por medo, ignorância ou má fé, consideram a possibilidade de restrições às liberdades, venham elas de que lado for. E no momento, creio que a alternância de poder será benéfica à Democracia. Creio também que as políticas de inclusão social serão mantidas e, assim espero, ampliadas numa eventual vitória de Aécio; isso é um caminho irreversível para o Brasil, tenho certeza, e você pode ter também. Repito, foi FHC quem criou políticas afirmativas (cotas) e os programas de bolsas gás e educação, que foram muito bem ampliadas pelos governos do PT. Mas o atual governo do PT está sendo vítima do que sempre ocorre quando um grupo permanece tempo demais no poder: está se corrompendo, está acreditando que o Partido é mais importante que o Brasil. Isso é fato, você acredite ou não. 

O budismo, religião que eu mais admiro, nos exorta a abrirmos mão dos rótulos que tendemos a por automaticamente nas pessoas por conta de nossos condicionamentos, e a tentar ver o mundo pelos olhos dos outro. Fazendo isso, podemos entender outros pontos de vista e enriquecer o nosso. Me esforço nesse sentido (quase) sempre, e por isso louvo várias das medidas do PT. Mas discordo de outra que considero crucial: a relativização da lisura e do respeito à Democracia. Deploro o suborno de políticos (inclusive pelo menos um do PSDB, o Sérgio Guerra) para atingir qualquer objetivo que seja. 

Antes de me responder num impulso, assista esse depoimento do Eduardo Jorge, partes 1 e 2 pelo menos. Tenho certeza que você respeita o Eduardo Jorge, e eu também acho ele excelente. Quisera que todos os políticos fossem ativos, bem intencionados, humildes, democráticos e seguros o suficiente para terem auto-crítica como ele. Sim, você tem razão, está cheio de "coxinha" (um rótulo) votando no Aécio. Eu não me considero coxinha e me alinho 100% com as opiniões de Eduardo Jorge que, você há de concordar, não é nenhum coxinha, mas também vota no Aécio, veja só! Assista o vídeo e entenda as razões dele. Se fizer isso, você vai ampliar sua mente e entender outro ponto de vista também. 

Respeito 100% suas convicções e, principalmente, suas intenções, que sei que são as melhores. Bom voto!


domingo, 14 de setembro de 2014

Missão aves do Pantanal 3: É muito passarinho diferente!

No jantar daquela nossa primeira noite no Araras Eco Lodge, pudemos confirmar o que já suspeitávamos: éramos os únicos brasileiros hospedados, com exceção de uma brasileira que vivia já há dezessete anos na Europa e viera acompanhando um grupo de amigos europeus. Fiquei imaginando o porquê.

Os lugares à mesa haviam sido pré-determinados, e compartilhamos a nossa com Nora e Jan, um jovem casal alemão, Josie e Kamil, um entusiasmado casal belga já em torno dos setenta anos de idade. Nora, uma moça alta de olhos azuis e muito simpática, havia morado por um ano no interior de São Paulo, onde viera parar meio por acaso por conta de um intercâmbio estudantil (sua primeira opção era a China mas seus pais não concordaram, então o Brasil era só o que restava a escolher). Desde então ela voltou aqui várias vezes, aprendeu a falar ótimo português e tem muitos amigos no Brasil. Seu marido Jan, um ortopedista com mais de 1,90 m de altura, se esforçava e arranhava razoavelmente o português. Já Josie e Kamil nada sabiam da última flor do Lácio, então o idioma à mesa acabou sendo o inglês. O casal belga era entusiasta da vida selvagem e já havia estado na Austrália, na Índia, em vários lugares da África e no Alasca. Haviam acabado de chegar de Porto Jofre, mais ao sul pela Transpantaneira, onde haviam ficado por mais de sete horas de tocaia para flagrar o "jaguar", nossa conhecida onça pintada. Tinham dispensado a pausa na tocaia para o almoço na cidade, e foram os únicos de seu grupo a fotografar o felino. Kamil me mostrou com indisfarçável orgulho muitas ótimas fotos de animais de diversas partes do mundo em seu smart-phone. O casal viajava uma vez por ano mas, desde que Kamil foi submetido a uma cirurgia nas coronárias, decidiu que seu tempo se encurtava e passaram a viajar duas vezes por ano.

Invejei o entusiasmo desses estrangeiros pela nossa vida selvagem, coisa que não é tão comum entre os brasileiros, pelo menos por enquanto. Uma viagem como essa ao Pantanal pode ser um pouco mais cara que uma à Europa ou Estados Unidos no que se refere à hospedagem, mas isto é compensado pela passagem aérea bem mais em conta. Considerando-se também que o nosso pacote incluía transfer ida e volta do aeroporto, pensão completa, guias full time e todos os passeios, concluo que o turismo de aventura não custa tanto assim. Simplesmente ainda não está bem divulgado entre nós. Sei que existem pessoas que morreriam só de imaginar uma perereca no banheiro do hotel ou em pegar alguns carrapatos durante um passeio (como nós pegamos), mas também pensei nos diversos amigos amantes das aves e da natureza que amariam estar aqui conosco, apesar desses pequenos ossos do ofício. Talvez estas crônicas possam contribuir para mudar esse quadro.

A conversa correu animada, lubrificada pelas caipirinhas que todos pedimos. A comida e a sobremesa estavam ótimas, mas era bom ir cedo para a cama porque a vida de eco-turista no Pantanal começa antes do sol nascer.

xxxxxxxx

Cavalarias á espera de uma chance de bicar um sanduíche.
Acordei ás 5:15 com o canto dos aracuãs, os despertadores do Pantanal que, em duetos como geralmente fazem, soam como briga de marido e mulher. Dei bom dia à perereca do banheiro, fiz a barba e logo estava na área externa de câmara em punho. Próxima à piscina e à varanda onde são servidos o almoço e o café da manhã, uma grande árvore despida de suas folhas servia de pouso para um caburé, um casal de papagaios verdadeiros e alguns tucanuçus. Pouco mais além, uma família com três gaviões-belos deixava seu poleiro noturno, dando lugar aos arapapás que chegavam da labuta noturna. Por toda parte ecoavam cantos de inúmeras aves, eu me esforçando para identificá-los. Em destaque o canto dos catataus, que bem podem ter servido de inspiração a Steven Spielberg para a trilha sonora das batalhas de Guerra nas Estrelas, com alguma contribuição do canto dos japacanins. Da passarela sobre os alagados avistava-se socó-boi, carretão, encontro e carão "dando mole", entre muitos outros pássaros. Rondando as mesas onde tomaríamos nossa primeira refeição, bandos de cavalaria, diversos sabiás-gongás, gralhas-do-pantanal e asas-de-telha... Ufa!

Logo aprendemos que primeiro tínhamos que nos servir do café e só depois buscar os pães e bolos. Caso invertêssemos a ordem e deixássemos nossos pratos sem vigilância encontraríamos dois ou três cavalarias dando bicadas em nossos sanduíches. Difícil largar a câmara e se concentrar na comida, mas... calma, Ralph, ainda serão mais quatro dias pela frente.

Depois do café, nosso primeiro programa: canoagem no Rio Clarinho. Embarcamos em um caminhão adaptado, com bancos na carroceria coberta. Seguimos por estrada de terra por trechos de pasto e alagados avistando capivaras muitas e jacarés de monte. Chegando às margens do rio, fomos alertados sobre o risco de levar-se material fotográfico nos caiaques, uma vez que eles não primam pela estabilidade, principalmente sob a direção de novatos com nós. Mas quem resiste? Arriscamos levar apenas uma das câmaras.

Biguatinga seca as asas depois de um mergulho.
Depois de algumas remadas desajeitadas, pegamos o jeito. Eu e Suely, escoltados pelo guia Alexandre Ribeiro, descemos o rio, que nessa época quase não tem  correnteza, avistando martim-pescadores, biguás e biguatingas. Uma família de ariranhas, surpreendida por nós em uma curva do rio, mergulhou e só reapareceu à uma distância segura às nossas costas. Depois de uns quarenta minutos, demos meia volta e desembarcamos no mesmo local de partida. Enquanto esperávamos o churrasco que nos seria servido, arriscamos pescar piranhas no pequeno cais. Nada fácil! Quando consegui fisgar a primeira, já tinha gasto mais que seu peso em iscas de aparas de carne.

Depois do almoço, já voltando, ainda flagramos um gavião preto.

Tuiuiú em seu ninho, a uns 15 metros do chão.
De volta à pousada, uma pausa para descanso, que aproveitamos para descarregar as fotos no notebook. Às três, depois de refrescos com biscoitos e bolo, partimos para uma caminhada pelas matas das cordilheiras próximas (para quem não lembra, são aqueles trechos que nunca ficam inundados). Escoltados às vezes por bandos de bugios e macacos-prego sobre nossas cabeças, foi a oportunidade de ver pela primeira vez uma das estrelas da companhia: udu-de-coroa-azul! Avistamos ainda chora-chuva-preto (também conhecido como bico-de-brasa), jacutinga-de-garganta-azul e seu primo, o cajubi. Fomos até a Torre do Tuiuiú, que nos deixou no mesmo nível de um ninho dessa ave enorme (a maior envergadura do mundo, depois do condor). Ao apagar das luzes, clicamos um pica-pau-dourado-escuro fêmea e um pavãozinho-do-pará.

Os agitos da night pantaneira se revela à luz dos faróis.
Depois do jantar, mais atividades (vida de ecoturista é como rapadura: é doce mas não é mole não!). Focagem noturna. Saímos na boleia do caminhão escuridão adentro, os guias vasculhando a noite em busca de animais. Avistamos, além das muitas capivaras deitadas na estrada, porcos-do-mato, cachorros-do-mato, tamanduá-mirim e guaxinim, além de um pequeno veado. A maior emoção ficou por conta do avistamento à distância de uma mãe-da-lua gigante, seus olhos enormes bem abertos refletindo a luz das lanternas. No dia seguinte a veríamos bem de perto.

Mãe-da-lua-gigante de olhos bem abertos.
Os lifers do segundo dia foram 20:
  • mutum-de-penacho
  • gavião-belo
  • papagaio-verdadeiro
  • xexéu
  • encontro
  • pavãozinho-do-pará
  • gavião-preto
  • juriti-pupu (acreditem, foi lifer)
  • carretão
  • cabeça-seca
  • graveteiro
  • pica-pau-branco
  • jacutinga-de-garganta-azul
  • udu-de-coroa-azul
  • chora-chuva-preto
  • tuiuiú
  • coró-coró
  • asa-de-telha
  • pica-pau-dourado-escuro
  • mãe-da-lua-gigante
(continua no próximo post)





quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Missão aves do Pantanal 2: Quase a capivara vai pro brejo

Finalmente o dia de nosso embarque! Marcamos de véspera com um taxista amigo e saímos de casa, eu e Suely, às cinco da matina em direção ao "Aeroporto Internacional Rio de Janeiro Tom Jobim Galeão" (o nome oficial é esse mesmo!). Às seis estávamos tranquilos na fila do check-in do voo para Cuiabá, que sairia às 7:06. Chegando nossa vez,  nos apresentamos no balcão da TAM e entregamos sorridentes nossos vouchers à funcionária. Ela torceu o nariz, levantou as sobrancelhas e sentenciou: "Esse voo sai do Santos Dumont." Pânico! Hora do rush da manhã, o repórter aéreo com certeza estaria anunciando trânsito parado na Avenida Brasil, Linha Vermelha, Presidente Vargas e Via Binário, rotina diária no Rio desde que derrubaram a Perimetral. Teríamos pouco mais de meia hora para chegarmos até o Centro do Rio na pior hora do trânsito. Atravessamos correndo o saguão do aeroporto com malas e mochilas e pegamos um táxi no setor de embarque mesmo. "Pelamordedeus, motorista!" Ele partiu rápido, consultando um aplicativo no celular sobre a melhor rota a tomar. "Vamos pela Presidente Vargas e pegamos a Avenida Passos", ele disse com segurança. "O tempo estimado é de 26 minutos." Maravilhas da tecnologia, pensei enquanto tentava ficar zen e imaginar um plano B. No mínimo perderíamos um dia no Pantanal e morreríamos numa grana para remarcar o voo. Não havia nem como pormos a culpa no outro, o vacilo tinha sido dos dois.

Mas não é que chegamos em 25 minutos? Suspiros de alívio ao conseguirmos despachar as malas. Agora era relaxar.

Tamanduá-bandeira, bicho tranquilão.
Depois de uma conexão em Brasília, desembarcamos no calor de Cuiabá, onde uma van pegou a nós e outros três casais, todos estrangeiros, e partiu em direção sul. Nosso destino era o Araras Eco-Lodge, às margens da Transpantaneira, depois de Poconé. A MT 060, também conhecida como Transpantaneira, começou com asfalto ruim, o que me trouxe um desconfortável sentimento de vergonha perante os estrangeiros. Mas, poucos quilômetros adiante, descobrimos obras de recapeamento em andamento, e seguimos por asfalto bom até a pequena Poconé. A partir daí, estrada de terra reta, plana e bem conservada até a sede do Parque. Paradinha para as primeiras fotos! Jacarés, capivaras e muitas, muitas aves! Garças brancas grandes e pequenas, uma garça real, garças-mouras, maçaricos-reais, trinta-réis-grandes, vários martim-pescadores diferentes, tuiuiús e emas ao longe... Só ali uns seis lifers. A excitação e a expectativa cresciam a cada clique, e era só uma pequena amostra do que veríamos nos próximos dias.

Trinta-réis-grande
Mais alguns quilômetros e chegamos a nosso destino, sendo recepcionados por um tamanduá-bandeira, sucos gelados, bolos e biscoitos. A recepcionista Ingrid deu-nos as boas vindas e instruções diversas, primeiro em inglês para os gringos, e só depois em português para mim e Suely. Antes de irmos até nosso quarto eu já fotografava uma gralha-do-pantanal e alguns cavalaria com suas belas cabecinhas vermelhas. Pouco mais tarde, as coisas já acomodadas em nossos aposentos, percorremos os arredores da sede, onde um príncipe, também conhecido como verão, se exibia nunca a menos de dez metro de distância, seu vermelho das vestes nupciais parecendo exagerado à luz do por-do-sol.

Príncipe macho, em traje nupcial. O vermelho
"berrando" à luz do fim-de-tarde.


















Os lifers do primeiro dia foram dezesseis:
  • trinta-réis-grande
  • caturrita
  • carretão
  • maçarico-real
  • curicaca
  • arara-azul-grande
  • ema
  • graúna
  • gralha-do-pantanal
  • cavalaria
  • aracuã-do-pantanal
  • saracura-três-potes
  • gavião-belo
  • carão
  • príncipe
  • martim-pescador-verde
(continua no próximo post)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Missão Aves do Pantanal: 1 - Preparativos

O incrível udu-de-coroa-azul, uma das jóias míticas da coroa do Pantanal
Planejamos e fizemos reservas para cinco dias no Pantanal Norte com seis meses de antecedência. A principal motivação era a observação e o registro fotográfico da avifauna da região. Em outras palavras, ver e fotografar passarinhos! A princípio, a viagem parecia distante e foi por um tempo eclipsada pelas atribulações do dia a dia. Mas à medida que a data de embarque foi ficando mais próxima, o imaginário começou a tomar conta dos pensamentos.

Sem sair do Estado do Rio, eu vinha me aproximando arduamente da marca de 200 espécies de aves fotografadas (cada registro original é chamado de "lifer" no meio dos observadores de pássaros ou birdwatchers). A possibilidade de fazer muitos novos lifers era concreta, mas quanto seria uma expectativa realista? Quarenta, 50, 80, 100? Esforcei-me para evitar grandes esperanças que pudessem vir a se transformar em frustração e tentei me concentrar em fazer boas fotos, independente da quantidade de aves fotografadas. Também temia me descobrir aquém da missão de registrar de forma minimamente competente tudo que viria a se apresentar diante da minha lente. Por outro lado, o treinamento que vinha tendo com fotógrafos de pássaros mais experientes e competentes (referência especial a Ana Gadini) e o fato de ter acumulado algumas "horas de voo" fotografando dentro da mata fechada característica do bioma da mata atlântica, pelejando para flagrar choquinhas e outros pássaros tímidos e arredios em meio ao emaranhado escuro do sub-bosque da floresta, me dava um mínimo de otimismo para as prometidas facilidades do bioma em geral amplo, aberto e bem iluminado do Pantanal (acabei descobrindo que sim! muitas espécies pantaneiras se escondem dentro das matas das "cordilheiras", como são chamados os trechos de terra permanentemente a salvo das inundações anuais do Pantanal). Enfim, sentimentos contraditórios e muita ansiedade.

Restava-me aliviar a tensão fazendo o "dever de casa". Filtrei no Wikiaves a relação de pássaros já registrados em Poconé (MT), nosso destino no Pantanal Norte. Eram 346 espécies, descobri, a grande maioria inexistentes no Estado do Rio e em geral desconhecidas para mim. Muitos pica-paus, muitos gaviões, muitos papagaios e afins, além das grandes aves dos brejos como o tuiuiu e o cabeça-seca, por exemplo. Depois passei algumas semanas usando o tempo livre para ver as imagens fotográficas dessas espécies, ouvir seus cantos e baixar uma seleção deles para meu velho celular para eventualmente utilizá-los como play-back (reprodução do canto para atrair espécies mais arredias).Enfim, busquei me familiarizar com meus futuros modelos fotográficos. Isso se mostrou fundamental em algumas situações, como narrarei depois.

Depois, o check list: repelente para insetos em gel e spray, pomada antialérgica, band-aid, merthiolate, protetor solar, anti-alérgico oral; separei até seringas e cortisona injetável para eventuais reações alérgicas mais violentas a picadas de insetos (sendo eu médico, a eventual indicação e aplicação não seria problema); lanternas recarregáveis, o celular com os play-back, boné, calças grossas à prova de espinhos, dois pares de tênis confortáveis (leia-se bem usados) tipo trecking (de cano alto e sola grossa), meias grossas de cano alto que permitissem enfiar a boca da calça dentro delas. Quanto ao equipamento fotográfico propriamente dito, levaria duas câmaras Canon: uma EOS 7D com minha lente Sigma 150-500 mm para os pássaros e a "velha" EOS 4D com lente 18-200 mm para fotografar a paisagem e as pessoas; notebook e cabo para baixar as fotos; monopé, recarregadores de baterias, baterias sobressalentes para as câmaras, flash e pilhas sobressalentes, cartões de memória extras para as câmaras, flanelas para as lentes (as que vêm acompanhando os estojos de óculos são ótimas, e devem ser levadas a campo para manter as lentes sempre limpas); e mochilas impermeáveis para proteger o equipamento de chuvas inesperadas.

Levaria o guia "Avifauna Brasileira", de Tomas Sigrist, mas este acabou ficando sempre na pousada para consultas no fim do dia. O "Guia Fotográfico Aves do Pantanal", de Sérgio Endrigo, acabou se mostrando mais prático em campo, por ser mais leve e ter um único índice com nomes em português, em inglês e em latim. Como descobriríamos mais tarde, os guias locais muitas vezes sabem o nome das aves em inglês mas não em português (a razão eu conto depois).

Pesquisei qual seria o preço de ter um guia passarinheiro exclusivo, mas o valor cobrado foi proibitivo, pelo menos para mim: US$ 1.800, 00! Isso mesmo, dólares. Descobrimos depois que isso teria sido um gasto totalmente desnecessário.

Três dias antes, as malas e mochilas estavam prontas e o material todo preparado, passagens e voucher do hotel prontos. Mas um detalhe ridículo quase pôs tudo a perder.

(continua no próximo post)


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O deus ostentação

Eu sempre quis entender o que leva tantos jovens a enveredar pelos descaminhos do crime. Pobreza, apenas, é explicação simplista, embora muito cara a certas correntes ideológicas. Os pais e os avós desses jovens quase certamente eram bem mais pobres que eles. Os pobres da minha infância eram muito pobres: moravam em barracos de tábuas e chão de terra batida, carregavam latas d'água na cabeça (como dizia o samba) e iluminavam a escuridão com lampião de querosene. Mas, mesmo com tantas adversidades, não escolhiam o caminho do crime. 

Não é apenas prendendo, muito menos matando estes jovens criminosos que vamos dar solução definitiva ao problema, embora a sensação de impunidade certamente incentive a criminalidade. O que eu quero dizer é que só com aumento da repressão policial ou pior, fazendo-se justiça pelas próprias mãos, como acreditam tantos cidadãos decentes que proclamam que "bandido bom é bandido morto", vamos dar solução a isso. Na verdade, milhares de jovens criminosos morrem todo ano em confronto com a polícia ou pelas mãos de outros criminosos, incluindo-se aí os criminosos que se autodenominam "milicianos". Outros milhares são trancafiados em presídios, de onde a maioria sai brutalizado e com pós-graduação em bandidagem. A cada um que é preso ou morto, parecem surgir outros dois para continuar a escalada criminosa. Não há solução através da repressão, apenas. Há que se tentar entender qual é essa a motivação irresistível que a vida de crimes tem para tantos.


Esses jovens criminosos de hoje têm mais escolaridade, comem melhor e moram melhor que seus pais. Então, porque optam pelo crime quando seus pais, mesmo mais carentes, persistiram na honestidade? A desigualdade tem sua parcela de culpa, claro. Mas, então, porque a criminalidade só cresce enquanto a pobreza e a desigualdade têm sido reduzidas?


Eu hoje acredito que o fato de vivermos em uma sociedade onde TER, CONSUMIR e OSTENTAR são impingidos de forma massacrante em todos os níveis sociais tem parcela significativa na explicação. Não à toa, o funk ostentação é sucesso entre jovens de todas as classes, em especial entre os mais pobres. Há um visível esgarçamento moral. Trabalho, esforço, determinação e respeito ao próximo não dão "Ibope" para grande parte dos jovens. É o prazer que tem que ser alcançada agora, já. Ninguém parece saber ou, se sabe, estar disposto a explicar a diferença entre prazer e felicidade. A felicidade demora e dá trabalho, enquanto o prazer pode ser imediato. Prazer pode-se comprar através de drogas, sexo ou ostentação objetos que denotem riqueza ou poder, e é isso que seduz tantos, e os jovens das classes menos favorecidas não são exceção. Drogas e idolatria do consumo explicam  em grande parte essa tragédia que, apesar de atingir uma ou outra vítima jovem de classe média (e aí sim vira notícia), é devastadora principalmente entre jovens pobres e pretos. Os próprios pais muitas vezes tentam, muitas vezes com sacrifício, fornecer os objetos de consumo que vão, acreditam, tornar o filho respeitado por este critério torto. Quando não há quem os forneça espontaneamente, os jovens que se rendem aos apelos da mídia buscam os atalhos do crime para poderem ostentar tênis de marca, cordões de ouro ou de prata, I-phones e roupas de grife. Claro, tem muita gente mais rica e mais instruída que adora estes mesmos deuses: drogas (felicidade química), aparência (plásticas, botox, sessões de 500, 800, mil reais no cabeleireiro) e consumo desenfreado. Depois reclamam. Eles se acham no direito de ostentar porque têm como pagar. Os pobres também querem, mas não têm como bancar a ostentação. Então partem para o crime. Não justifica, mas explica. Vivemos no templo do deus ostentação.

domingo, 10 de agosto de 2014

Adeus à aquarela

A necessidade de se expressar através da arte é universal e tão
antiga quanto a espécie humana.
Há uma semana decidi que era hora de dar um tempo em minhas aulas de aquarela. Frequentei aulas com Renato Alarcão por três anos. Continuava sendo um grande prazer comparecer àquele compromisso nas segundas à noite, mas aos poucos fui me dando conta de que ultimamente o maior motivo para eu continuar à frequentá-las era a conversa, não só com Renato (que hoje é um bom amigo) como com meus colegas Chrystiane, Lívia, Dudu e Basílio, os quatro que, comigo, formavam ultimamente o hardcore da turma, fora o público flutuante. Todos gente fina, interessante, inteligente e de sensibilidade artística. Na última aula percebi que estava falando demais e pintando de menos, atrapalhando o andamento da aula. Hora de dar não um adeus, mas um até logo.

Uma vez perguntei a um colega médico qual era seu hobby. “Como assim, hobby?”, ele estranhou a pergunta. “Aquilo que você gosta de fazer quando não tem nenhuma coisa que precise ser feita.” “Ah, sim! Eu gosto de ler jornal.” Como assim???

Para mim é difícil conceber que alguém viva uma vida inteira sem tentar se expressar artisticamente de alguma forma. Que dedique seu tempo livre apenas a dormir, beber cerveja, perambular pela internet ou ver TV. O mundo com toda a sua beleza e complexidade e os homens e mulheres, com suas grandezas, misérias e angústias, das quais compartilhamos todos, me são impactantes demais para que eu não me deixe arrastar e me assombrar a cada dia, a cada palavra, a cada paisagem. Daí, a necessidade de tentar de alguma forma expressar como a vida me afeta, como eu a percebo e sinto. É uma urgência tão básica quanto a respiração. Então eu flerto com a fotografia, com a pintura e com a literatura, tanto consumindo e admirando o fazer dos artistas de verdade como me arriscando nessas formas de expressão. Sem isso, me deprimo.

Cada um de nós tem uma visão da vida de um ângulo peculiar, e podemos mostrar ao mundo essa visão original. Nós nem ninguém tem a visão completa e definitiva, e ver pela experiência do outro enriquece a compreensão da existência.

Agora estou fascinado pela fotografia, em especial pela foto de aves, paixão da vez despertada pela enorme variedade de pássaros que aparecem em nosso sítio na serra. A maior parte deles era desconhecida para mim. Comecei então a fotografá-los e a tentar saber quais eram. Na sequência natural, descobri que tem muita gente que também curte reconhecer, fotografar e gravar o canto de pássaros. Ponto de partida para novas amizades, o efeito colateral saudável de todos os hobbies.


“Ah”, dirão, “mas eu não tenho talento artístico.” Todo mundo (ou quase?) tem uma habilidade, um interesse, uma coisa à qual gostaria de se dedicar se tivesse tempo. E tempo é questão de prioridade. Pode ser culinária, pesquisa histórica, literatura, um esporte qualquer, desde alpinismo até xadrez, bordado, carpintaria jardinagem ou astronomia. Algo a que se possa dedicar pelo puro prazer da coisa, sem expectativa de ganho financeiro e independente de reconhecimento. Sugiro que todos encontrem um interesse e dediquem-se a ele. Deixe sua marca, diga como você vê a vida. É uma forma de não morrer.

sábado, 26 de julho de 2014

Brasileiro e estrangeiro

Era minha primeira semana no jardim de infância. Eu e meus coleguinhas saíamos de uma atividade qualquer na sala de artes em direção à nossa própria sala, no final de um longo corredor. A professora alertou: “Não quero ninguém correndo. Vamos andando sem fazer barulho para não atrapalhar as outras turmas, crianças!” Foi a senha para que todos disparassem aos gritos pelo corredor. Todos menos um: eu. (Não me perguntem porquê eu não corri também, eu não saberia dizer). Pouco depois, quando estávamos  sentados em nossos lugares, a professora repreendeu a turma e disse: “O único que obedeceu foi o Ralph.” Imediatamente duas dúzias de pares de olhinhos se voltaram fuzilantes contra mim. Revendo a cena hoje, concluo que aquela foi a primeira vez em que me dei conta de que eu estava no lugar errado. Eu não sabia ainda que era um estrangeiro em meu país.

Já escrevi aqui no blog sobre pessoas que já nascem estrangeiras. Existem noruegueses, tchecos e britânicos que, mal desembarcam nas terras de Iracema, se dão conta de que eram exilados sem saber. Imediatamente aprendem a gíria da vez, sentem-se à vontade de chinelos em qualquer ambiente, viram fãs de caipirinha e passam a chamar todo mundo de mermão ou meu rei.

Já outros, nascidos aqui, têm dificuldades em entender os nossos códigos e costumes. Especificamente, me irrita a maneira como lidamos com as regras. Todos, brasileiros ou não, ficamos indignados quando a burocracia emperra quando não se paga propina, irritamo-nos quando vemos pessoas jogarem latas de cerveja da janela de carros caros revoltamo-nos ao vermos outras pessoas furarem filas por serem “amigas do rei”. Mas alguns brasileiros, arriscaria dizer muitos, só manifestam essa indignação quando não são eles próprios a praticarem ou se beneficiarem dessas mesmas práticas que abominam no outro.

O fato é que me foi difícil crescer nessa cultura e me adaptar a seus códigos. Conto aqui umas poucas dentre inúmeras situações que me foram muito didáticas nesse meu esforço de adaptação.

Fiz residência médica no Hospital Central da intimorata corporação Policial Militar do Rio de Janeiro, à qual me adaptei sem nenhuma dificuldade, diga-se de passagem. Morador de Niterói, o deslocamento até o Estácio, endereço do hospital e um dos berços do samba carioca, era feito de ônibus a princípio, e depois num Fiat 147 grená já bem usado, meu primeiro carro. Embora menos frequentes na época, os engarrafamentos na Ponte Rio-Niterói aconteciam de vez em quando, o que provocava ocasionais atrasos e consequentes descontos, além de gerar os temidos ofícios chamados de “Deveis Informar”, nos quais éramos obrigados a justificar as impontualidades. Tudo muito justo, não fosse o fato de que dois de meus colegas, o Fábio* e a Laura*, nunca serem penalizados. Não que eles fossem pontuais, muito pelo contrário. Fábio tinha outro emprego de manhã, no mesmo horário de seu expediente no HCPM, e nunca era visto depois das dez horas. Já a Laura, uma loura esguia de belos olhos verdes, nunca chegava antes das dez. Dizíamos até que a intercessão do expediente dos dois era um conjunto vazio. Achava aquilo muito injusto. Naquela época, em meus esforços de adaptação, já havia começado a fazer terapia. Relatei minha indignação ao terapeuta. “Você dá bom dia ao cabo que registra o ponto?”, perguntou ele. “Sim, claro, sou uma pessoa educada.” “Mas você pergunta sobre os filhos dele? Sabe quantos são? Sabe os nomes dos filhos dele? Sabe para qual time ele torce? Dá bombom para ele na Páscoa?” Não, eu não fazia nada daquilo. Apenas dava bom dia com um sorriso de japonês. A princípio me recusei a aceitar aquilo como um bom conselho (aliás, talvez aquela tenha sido a única vez em que meu analista tenha me dado um conselho assim, tão direto). Foi uma dura lição de como ser brasileiro, mas passei a me esforçar para por em prática aquelas orientações preciosas e óbvias. Óbvias para os brasileiros que, parece, que já nascem com elas impressas no DNA. Uma subespécie de homo sapiens mais bem adaptada às terras de Macunaíma, nosso maior herói. Como disse um repórter esportivo alemão durante a “Copa das Copas”: no Japão, todos são extremamente educados com você, mas os brasileiros são mais, eles são todos legais! Então, estrangeiros, aprendam: no Brasil não é suficiente ser educado, é essencial ser legal. Admiro sinceramente essa simpatia do brasileiro, uma coisa que em mim não é inata e que me esforço para aprender. Não por coincidência, a simpatia e o modo caloroso dos patrícios foram unanimidade entre os estrangeiros que aqui estiveram durante a Copa. É uma das coisas da qual todo brasileiro deve se orgulhar.

Mas, colegas gringos, não confundam ser legal com legalidade, duas coisas bem diferentes, às vezes, infelizmente, contraditórias. Explico. Alguns anos mais tarde eu havia acabado de montar meu próprio consultório médico, e precisava do alvará para poder começar a funcionar e pleitear credenciamento junto aos planos de saúde. Um dos muitos documentos exigidos pela prefeitura para emitir o alvará era o laudo de vistoria do corpo de bombeiros, que, para ser emitido pela também brava corporação dos soldados do fogo, exige uma outra série de documentos. Todos foram diligentemente anexados por mim ao dar entrada no pedido de vistoria. Que não saiu em um mês, nem em dois, nem em três. Deixava eu o quartel dos bombeiros de Niterói pela terceira ou quarta vez, desanimado com mais uma alegação de excesso de serviço, de férias do capitão que faz as vistorias e de outras justificativas dadas pelo sargento do protocolo, quando encontrei um amigo que tinha duas ou três lojas na cidade. Desfiei o meu rosário para ele. “Você vai esperar mais de um ano assim, meu amigo, e não vai conseguir o seu laudo. Vou lhe dar o telefone do capitão Taborda*, que vai resolver rapidinho o seu problema.” Senti um certo mal estar, mas, como estava determinado a destrinchar os costumes brasileiros, acabei cedendo. Confesso que o capitão Taborda, um cara muito simpático, foi eficiente. Em menos de 48 horas ele veio me entregar o laudo da vistoria em mãos. Muito legal o Taborda. Claro, para não fazer desfeita dei um agradinho para ele, como meu amigo brasileiro havia me instruído a fazer.

Só mais uma. Este mês uma paciente de primeira vez se irritou porque já estava havia 40 minutos depois da hora marcada na sala de espera sem ter sido atendida ainda por mim. Confesso que ela estava coberta de razão. Mas acontece que, apesar de não marcar consultas em excesso e, salvo em emergências, não fazer “encaixes” na agenda, às vezes algumas consultas demoram mais do que o previsto e a fila atrasa, o que é sempre lamentável. Pois bem, a paciente se recusou a continuar esperando e se retirou cuspindo marimbondos, com toda razão. Ocorre que o marido dela também estava agendado para uma consulta dali a alguns dias. Ela telefonou na véspera perguntando se poderia entrar junto com ele para ser atendida também. “Mas se a senhora não está marcada, isso vai atrasar as consultas posteriores”, justificou minha secretária. “Mas ninguém precisa saber que eu também vou me consultar”!

Os exemplos poderiam se repetir ao infinito. Este é o modo de ser dos brasileiros, um povo realmente amável e legal naquilo que estas palavras têm de melhor, mas também um povo “cordial”, naquele sentido clássico definido por Sérgio Buarque de Holanda, onde ser cordial significa dar um jeitinho, livrar um amigo das exigências da lei ou da burocracia, furar ou deixar furar uma fila, facilitar as coisas para os amigos em detrimento daqueles que não são “da turma”. O que fatalmente desemboca no suborno, na corrupção, no nepotismo e na “pizza”. Este modo de ser peculiar talvez seja herança dos nossos ancestrais (permito-me aqui a liberdade de me incluir como brasileiro), que omitiam algum ouro dos fiscais da Coroa Portuguesa, para não pagar “o quinto” do que era extraído das Minas Gerais (hoje a “coroa” brasileira fica com 38%, e não há indícios de que uma outra Inconfidência esteja para acontecer); talvez os escravos precisassem enganar feitores e senhores para não morrerem de tanto trabalhar ou para conseguirem alguma carne melhorzinha que miúdos, pés e orelhas para misturarem no feijão. Este é um campo de pesquisa a que inúmeros sociólogos já se dedicaram com afinco sem respostas definitivas. Já pelo lado bom da mesma moeda, não consigo imaginar que um dia os brasileiros sejam capazes de tramar o extermínio dos judeus do país ou de lançarem-se dentro de aviões carregados de explosivos contra navios inimigos.

Eu, de minha parte, estou constrangido, envergonhado mesmo, confessando as vezes em que agi dessa maneira tão “brasileira”, no mau sentido. Não creio que este jeitinho seja o melhor modo de construir um país onde haja felicidade e prosperidade para todos. Sei que muitos brasileiros também pensam assim. Leio diariamente depoimentos e assisto entrevistas de brasileiros sérios (chatos, diriam alguns) que lutam para que passemos a ser um país onde os prazos e os orçamentos sejam cumpridos, onde os criminosos sejam condenados e paguem suas penas até o fim, onde haja menos burocracia e, consequentemente, menos espaço para cobrança de propinas; onde o serviço público seja de qualidade e onde os impostos beneficiem a todos, principalmente os mais necessitados; onde as exigências valham igualmente para todos e onde o cidadão dê o exemplo antes de cobrar do vizinho; onde não se jogue lixo nas ruas, mas também haja coleta de lixo em todas as ruas; onde as leis de trânsito sejam cumpridas e  as estradas sejam bem sinalizadas e pavimentadas. Temos que lutar para sermos mais “japoneses” ou “alemães” no que se refere à civilidade e à eficiência, sem perdermos nossa alegria e cordialidade, no bom sentido. Não é tarefa fácil, mas eu acho possível.

*Os nomes são fictícios


terça-feira, 17 de junho de 2014

Três homens e dois gatos

Three men and two cats, watercolor, acquarella, aquarelle

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Gambiarras Venezianas

Venetian backyards seen from the balcony of a hotel room.

Esta era a vista da sacada do quarto de hotel em Veneza. Acompanhava o som e o odor de peixe sendo frito, criança chorando e alguém cantando em italiano. Aquarela e nanquim.

sábado, 10 de maio de 2014

As meninas roubadas porque liam livros

“E vos é proibido esposardes as mulheres casadas, exceto as escravas que possuís …” *

“E então ele escreveu o documento do casamento com Aisha quando ela era uma menina de seis anos de idade, e consumou o casamento quando ela tinha nove anos.” **

“Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticam ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte.” ***

“Quando um homem tomar mulher (...) e contra ela divulgar má fama, dizendo: ‘Tomei esta mulher, e me cheguei a ela, porém não a achei virgem’; Então o pai da moça e sua mãe tomarão os sinais da virgindade da moça, e levá-los-ão aos anciãos da cidade, à porta; (...) Se isto for verdadeiro, isto é, que a virgindade não se achou na moça, então levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão, até que morra.” ****

Estes são textos considerados sagrados e inspirados por Deus. Que homem, então, se atreveria a contrariar um mandamento divino? Quem os segue à risca, faz bem aos olhos de Deus e garante seu lugar no paraíso. Assim acreditam os radicais religiosos.

Para sua informação: os dois primeiros mandamentos foram copiados do Corão e os dois últimos da Bíblia. Ao autorizar a escravidão e ao determinar ser um direito do dono de escravas possuí-las sexualmente, ao descrever que o próprio Profeta Moisés manteve relações sexuais com uma menina de apenas nove anos de idade, ao prescrever a morte aos homossexuais e às mulheres que se casarem “impuras”, tanto os mandamentos do Corão como a Bíblia são bárbaros nos dias de hoje.

Os textos sagrados do Velho Testamento judaico-cristão foram escritos há mais de dois mil anos e o Corão foi redigido no século VI da era cristã. Há muito tempo, portanto. Eram épocas em que as leis laicas e religiosas eram, frequentemente, a mesma coisa. Os livros do Velho Testamento, assim com as surias do Corão, prescreviam regras de conduta e punições para os que não as seguissem. Muito provavelmente foram um grande avanço numa época de caos social, e devem ter sido responsáveis por reduzirem punições ainda mais bárbaras e trazerem alguma unanimidade em relação ao que era ou não justo. Mas isso foi em outra época e em outro contexto.

O sequestro das jovens estudantes nigerianas por radicais islâmicos me fez tentar imaginar as razões que levam alguns, ainda hoje, a acreditar que estas regras ainda devam ser aplicadas. Do ponto de vista do Corão, os muçulmanos travam o Jihad, uma guerra santa, um esforço para submeter os “infiéis”. Sob este aspecto, as meninas nigerianas seriam prisioneiras de guerra e, ao privá-las de educação, eles estariam cumprindo os desígnios divinos. Como escravidão, sexo com escravas e com meninas impúberes são previstos no Corão, tudo se encaixa e se justifica daquele ponto de vista torto.
Estamos, no entanto, no século XXI. Ao contrário do que imaginam os pessimistas, a civilização evolui. Hoje as leis das sociedades mais modernas são mais compassivas para com o ser humano e tolerantes para com as diferenças; mais protetoras para com os indefesos e menos tolerantes com os que abusam à força de outros seres humanos. Menos bárbaras, portanto. Não admitem o trabalho escravo, o sexo não consensual, e não condenam adúlteros nem homossexuais/homoafetivos.

A separação entre estado e religião, outra característica das sociedades modernas, impede a imposição de leis e princípios religiosos aos que não professam e não concordam com a religião majoritária.

Diga-se de passagem: neste contexto, não vejo sentido lógico quando uma designação cristã, nos dias de hoje, condena o homossexualismo baseado em afirmações da Bíblia. A seguir-se todos os mandamentos bíblicos, estaríamos apedrejando adúlteros, homossexuais e mulheres (só mulheres, vejam só!) que não se casem virgens. Haja pedra!

Como o aperfeiçoamento civilizatório certamente ainda não se completou, fico imaginando que mesmo hoje, muito provavelmente ainda admitimos como normais práticas que vão se revelar bárbaras ou inadmissíveis daqui a alguns séculos. Que práticas seriam estas? Vale alguma reflexão.

Existe uma lei maior que qualquer código penal ou texto sagrado: a lei do amor ao próximo, da tolerância para com as diferenças, da proteção aos vulneráveis. A civilização, em que pesem alguns retrocessos e períodos de trevas, avança nessa direção. Eu, pelo menos, assim vejo e acredito. Enquanto isso, caberia às nações que pertencem à parcela mais esclarecida e civilizada da grande sociedade humana proteger as vítimas do radicalismo e do obscurantismo religioso. Mas como fazer isso sem violar a autonomia das outras nações? Questão difícil, mas que exige reflexão e resposta.

Assista este vídeo, um menino egípcio surpreendentemente lúcido.

*    Alcorão, Sura 2:228
**  Alcorão, Sura 4:24
*** Bíblia, Deuteronômio 22:22
****Bíblia, Deuteronômio 22:13-21

terça-feira, 6 de maio de 2014

O fabuloso Sargento João Cantor

Barcos, reprodução de aquarela de John Singer Sargent
John Singer Sargent é um dos meus dez (talvez cinco) pintores favoritos. Filho de um médico norte-americano, nasceu em Florença em 1856. Estudou pintura na Itália e na França, antes de radicar-se em Londres. Foi o mais celebrado e requisitado retratista de seu tempo. O mais famoso  de seus retratos, o de Madame Gautreau, escandalizou Paris ao retratar a socialite da época com uma alça de vestido displicentemente caída, algo de excessiva conotação erótica para a época.

Além de retratista, foi um exímio aquarelista, rivalizado apenas, a meu ver, pelo espanhol Joaquín Sorolla na excepcional capacidade de reproduzir o efeito da luz solar incidindo em paisagens, modelos, tecidos e construções. Foi daqueles poucos pintores que, na maturidade, nada mais têm a aprender. Não sei o porquê, mas talentos excepcionais como os de Sargent e Sorolla são virtualmente desconhecidos do público leigo.


Uma das melhores e mais tradicionais maneiras de desenvolver a habilidade de alunos aprender a técnica dos grandes mestres, seja de pintura a óleo ou aquarela, é reproduzindo suas obras. Foi o que, reverente e humildemente, busquei aqui. Com a orientação  presencial de Renato Alarcão e espiritual do saudoso mestre das marinhas Roberto Paragó.


Para ver mais obras de Sargent: Acesse este link

terça-feira, 15 de abril de 2014

Pátria filha

Mais um amigo, como tantos outros fazem ou já fizeram, dá notícias interplanetárias daquele outro mundo, chamado de Primeiro: “Aqui não há bala perdida”, diz ele. “Aqui nem sabem o que é bala perdida. Aqui os primeiromundáqueos passeiam de madrugada pelas ruas desertas sem medo de serem assaltados. Aqui se deixa a chave na ignição enquanto se entra na farmácia para comprar alguma coisa. Aqui as estradas não têm buracos, as escolas públicas ensinam, a saúde pública atende e cura, os políticos são honestos e não têm mordomias, e os que se tornam políticos o fazem apenas pelo desejo de servir à sua comunidade e ao seu país de Primeiromundo. Aqui...”

Leio e ouço tudo com um misto de inveja e humilhação. Meio que como o pai de um vagabundo drogado assiste o filho do vizinho formar-se com louvor e conseguir um belo emprego. Suspiro. Acabei de assistir o noticiário das oito, o que não traz nenhum consolo. Pelo contrário, só serve para acentuar o desconforto. Mentalmente me esforço para esboçar uma reação. Afinal, nas grandes cidades de Primeiromundo há, sim, violência e não se pode dar sopa para ladrão na maior parte delas. Volta e meia por lá um louco entra com fuzil e metralhadora numa escola ou no antigo local de trabalho e mata dezenas sem mais nem menos (parece que nisso já começamos a copiar o Primeiromundo). Outros mantêm mulheres escravizadas e trancafiadas por décadas no porão de casa em vizinhanças abastadas e tranquilas. Não é nenhum paraíso, com certeza. Mas (ai!) sim, lá as pessoas respeitam mais as leis, assassinam menos, assaltam menos, corrompem menos e são menos corrompidas. E, quando o fazem, há muito mais chance de pagarem por seus crimes. Lá o cidadão vê os impostos retornarem em forma de estradas bem sinalizadas e pavimentadas, ruas limpas e seguras, e funcionalismo público funcionando para o público. A burocracia é mínima e qualquer um que queira produzir riqueza e dar empregos é incentivado a isso.

Não há como negar: na zona do Euro, no Canadá, na Austrália, no Japão, na Coréia do Sul e nos Estados Unidos (este com algumas ressalvas) a civilização avançou mais. Há menos improviso e mais previsibilidade. Sei dos que acham essa previsibilidade monótona, um túmulo da criatividade. Sei dos que louvam o jeitinho, a improvisação, o deixar para última hora, o compadrio, a cordialidade malsã que facilita as coisas para os amigos, mas só para os amigos; dos que se regozijam com a intimidade do guardador de carros que, debaixo da placa de proibido estacionar, nos chama de chefia, de amizade ou de mermão, pedindo “deixa solto, dezinho adiantado, que eu já saindo, fica sussa que o guarda tá na minha mão e não multa”. Essa relativização das regras, que nunca deixa de me horrorizar, encanta alguns poucos estrangeiros que, um dia, se descobrem brasileiros que foram entregues pela cegonha em endereço errado. Para mim, não passa de corrupção no varejo, praticada por aqueles mesmos que a execram e condenam nos poderosos. Serão os governantes corruptos que, pelo mau exemplo, autorizam a corrupção miúda ou somos um país de hábitos corrompidos que nascem do povo e alcançam o poder? Talvez as duas coisas? Realmente não sei.

Entendo quem desista do Brasil e parta para Primeiromundo em busca de uma vida melhor para si e seus descendentes. Que, por sua vez, vão nascer ou se naturalizar cidadãos de Primeiromundo e para quem do Brasil restará apenas um sobrenome Silva e nada mais. Me pego às vezes questionando se vale a pena insistir em continuar sendo brasileiro. Nem mesmo sei se meus netos nascerão aqui ou em terras mais gentis.


Mas sei, sim, que quem faz um país é seu povo. Não vejo a pátria como mãe, e sim como filha. Minha pátria cresce ou definha conforme meu trabalho, meu esforço, meu cumprimento ou atropelo das regras e da lei, com minha gentileza e meu cuidado para com ela e para com o povo que, comigo, nela habita. Como uma filha, minha pátria amadurece e desenvolve seu caráter com minhas críticas e minha indignação, com minhas cobranças e minha vigilância. Se ela não é gentil, talvez seja porque, até hoje, dela muito se espere e se tire, e a ela pouco ou nada se dê. O lugar onde o acaso me plantou para tentar fazer um mundo melhor calhou de ser aqui. Outras pátrias que não a minha podem ser mais resolvidas, menos rebeldes e mais gratas. Mas não são a minha Pátria Filha. Posso ser ingênuo, mas não desisto dela.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Os quatro filmes da minha vida

Na minha falta de modéstia, sempre me imaginei numa entrevista, sendo perguntado sobre quais os filmes de que mais gosto. Cansei de esperar, então vou falar mesmo sem ter sido perguntado:

1 – Dersu Uzala (1975), de Akira Kurosawa. Eu não tinha 20 anos e não tinha namorada. Estava em cartaz o filminho romântico “Lagoa Azul”, com a ninfeta Brooke Shields. Aos dezenove, éramos todos teens, então não era tecnicamente pedofilia amarmos intensamente Brooke como nós amávamos (éramos apaixonados também por Jodie Foster e, principalmente, por Natasia Kinski. Como a filha do Nosferatu Klaus Kinski podia ser tão diabolicamente linda, meudeusdocéu!). Alguém muito sábio me alertou que a Lagoa não era filme para ser visto sem namorada. Risco de depressão grave.
Natasia Kinski, gatíssima
Quando finalmente me vi namorando, a Lagoa já tinha saído de cartaz. Levei a menina para assistir Derzu. O Cinema 1, que depois virou o falecido Estação Icaraí, superlotado. Só nos restou sentarmos na primeira fila. O filme me agradou tanto que não lembro do que rolou entre mim e a garota durante a sessão. A amizade profunda entre o oficial russo e o caçador siberiano, com sua ética, solidariedade, compreensão e respeito pela natureza despertaram o desejo de descobrir em mim o espírito ancestral que sabe coexistir com tudo que é vivo. As imagens da floresta siberiana e da tundra, na neve do inverno e no calor do verão, as cenas de tensão, como a da súbita tempestade ártica que os surpreende enquanto atravessam um enorme lago gelado, os fantasmas e xamãs da floresta... Inesquecível.

2 – Amarcord (1973), de Federico Fellini. Onírico, doce, fantástico, Amarcord é uma colcha de retalhos de lembranças de Fellini, reais e imaginárias. A vida aparentemente sem graça em uma pequena aldeia italiana à beira-mar vai aos poucos se mostrando lírica em suas pequenas tragédias, nos personagens que vão aos poucos revelando uma humanidade sem qualquer heroísmo ou maldade. A cena do touro branco que surge em meio à névoa, sem uma palavra que atrapalhe a simples imersão no mundo dos sonhos, o cunhado louco que, depois de um tranquilo piquenique em família, sobe até o alto da grande árvore para gritar sem parar “Io voglio uma donna!” Depois de assistir-se Amarcord, sentimo-nos invadidos por amor e compaixão quase infinitos pelo ser humano comum.

3 – Fargo (1987), dos irmãos Coen. Já aqui, a humanidade surge em toda a sua pequenez. Canalhas medíocres, maldades baratas, covardias e desonestidades. Um sequestro desastrado, uma dupla de bandidos formada por um psicopata burro e um joão-ninguém arrogante, unidos pela incompetência. Um mandante covarde tentando aplicar um golpe no sogro avarento. Em meio a tanta sordidez, a policial Marge Gunnarson, grávida de sete meses, é uma ilha de virtude num mar de gelo e egoísmo. Com direito a tiros mal dados, perseguição de carro em meio a uma nevasca, cadáveres triturados numa picadeira de capim tingindo de sangue vivo a neve morta e gelada. Muita ação e humor negro.

4 – O Dia da Marmota, ou Feitiço do Tempo, Groundhog Day (1993) de Harold Ramis. Uma equipe de reportagem, destacada para cobrir o Dia da Marmota na pequena Punxsutawney, fica ilhada na cidade por conta de uma nevasca. Mais que ilhado na cidade, o cético e sarcástico repórter Phill Connors (Bill Murray), fica aprisionado em um dia que se repete exatamente igual a cada amanhecer. Ele só vai se libertar da repetição sem fim se aprender algo. A parábola perfeita do ciclo de nascimento e morte do samsara da filosofia budista. Não vale se suicidar, não vale trapacear, não vale fingir. A única saída é fazer de novo e de novo, até aprender.

Estes são os meus. Quais são os seu quatro favoritos?

(Clique nos links para assistir os trailers)

domingo, 30 de março de 2014

Ah Mueck!

Máscara II, Ron Mueck no MAM - Rio de Janeiro
Sentado próximo à proa, ele está só e está nu. Ele é desproporcionalmente pequeno ou será o barco que é desproporcionalmente grande?  Não há remos, nem leme, nem vela, nem mastro. Ele está à deriva, e os braços cruzados do homem demonstram que ele sabe que não há o que fazer ou como lutar. Seu destino e seu futuro escapam-lhe completamente ao controle. Olho mais uma vez para seu rosto enrugado: um rosto quase familiar, que poderia ser do vizinho ou de um velho professor, talvez de meu avô quando eu era criança. Estou preparado para ver estampado naquele rosto o desespero ou a conformidade. Mas ele me desmente: os olhos estão vivos e atentos, o pescoço um pouco esticado para diante, como que tentando enxergar algo que está mais à frente e que ele não consegue ainda distinguir o que é. Será o fim? Será a esperança?

Já o enorme casal sob o guarda-sol colorido a princípio desperta pena. Eles são velhos. Estão em alguma praia, provavelmente cercados de corpos jovens e firmes como os deles já foram, mas nada indica que algum dia tenham sido belos. Os cabelos dele são ralos e os dela são curtos e grisalhos. Nenhum sinal de vaidade, a não ser as grossas alianças douradas, apertadas demais naqueles dedos nodosos que já foram mais magros um dia. Ele repousa de costas na areia imaginária, a cabeça apoiada nas pernas e nas varizes das pernas da companheira. Lembro-me, como contraponto, de “O Beijo”, de Auguste Rodin, o jovem casal de formas perfeitas que se enlaça em um beijo intenso e sensual, expressão perfeita e ideal do arrebatamento da paixão. Mas, então, percebo que o velho senhor tem um quase imperceptível sorriso no canto dos lábios, que transmite felicidade discreta e convicta, oposta à dos selfies escancarados a que sou submetido diariamente nas páginas das redes sociais. Contorno os dois e descubro que o braço direito do homem, o cotovelo apoiado no chão, segura delicadamente o braço de sua companheira. Procuro os olhos dela: cercados de rugas, eles repousam ternos sobre a face do seu homem. Ele, distraído, não vê, mas talvez possa pressenti-los. Os dois ultrapassaram a juventude e deixaram para trás a paixão, essa bijuteria vistosa. Eles se amam.

E assim vou percorrendo uma a uma as nove esculturas hiper-realistas de Ron Mueck. O realismo técnico, embora impressionante, é acessório. O verdadeiro realismo está na capacidade de cada uma delas transmitir uma humanidade que nos penetra sem pedir licença, como a faca que penetrou o abdome do jovem negro de outra escultura: ele ergue a camiseta ensanguentada e examina aturdido a ferida, sem entender como a vida pode atingi-lo assim, tão profunda e inesperadamente.

Uma hora de pé na fila do lado de fora do MAM, a sala lotada de visitantes, mas vale cada segundo. Vale mais: vale o preço de uma ponte aérea, vale faltar a um dia ao serviço, vale ir sozinho. Só não vale não ir ver Ron Mueck no MAM do Rio.

sábado, 29 de março de 2014

Cinquenta anos atrás, minhas parcas lembranças

Era uma terça feira, 31 de março. Meu pai e meu avô pareciam agitados e não saiam de perto do rádio naquela noite; ele ainda estava ligado quando eu fui colocado para dormir. E o som do rádio já estava no ar quando acordei na manhã de quarta feira. As ruas de Niterói estranhamente desertas: pouquíssimos carros passavam de quando em quando. Nem meu pai nem meu avô foram trabalhar naquele dia. Também não deixaram que eu e minha irmã fôssemos brincar na praça em frente, com fazíamos logo depois de tomarmos nosso café com leite mais pão e manteiga. Se tivéssemos ido, estaríamos sozinhos, pois parecia que todos os pais haviam proibido as crianças de sair de casa. Tanto meu pai como meu avô pareciam preocupados, mas, ao mesmo tempo, aliviados com as notícias que ouviam e eu não conseguia entender. Eu tinha seis anos de idade e o ano era 1964.

Quatro anos depois, meu pai chegou mais cedo do trabalho. Contou que tivera que se abrigar dentro de um prédio na Avenida Rio Branco, centro do Rio, quando tentava alcançar a Praça XV voltando do trabalho. Fugia das bombas de gás lacrimogênio e do cassetete da polícia. Do alto do prédio, contou ter visto a cavalaria avançar contra os estudantes, que lançaram bolas de gude pelo asfalto e conseguiram fazer com que alguns cavalos escorregassem e caíssem. Ele estava assustado, e não estava exatamente satisfeito. Isso em 1968.

A imprensa era censurada, o exército combatia truculenta e ferozmente a oposição, armada ou não. Gritos ecoavam silenciosos pelo subsolo da pátria, enquanto os sequestros e assaltos a bancos praticados pela esquerda clandestina eram anunciados aos quatro ventos. Meu pai e meu avô pareciam não se importar. Nós, que nunca tivéramos carro, tínhamos dois. Entramos de sócios para um clube, e o pão com manteiga passou a alternar-se na mesa com presunto e geleia, novidades na nossa casa. Provamos nossos primeiros iogurtes. Pelo BNH, meu pai deu entrada em um apartamento e deixamos de morar de aluguel.

Quando comecei a cursar medicina, em 1977, estávamos em plena vigência do AI-5. Ernesto Geisel fechou o Congresso no chamado Pacote de Abril, criando, como um Frankenstein, os senadores biônicos. Apesar disso, ele acabara de exonerar o então ministro do exército, o linha dura Sylvio Frota, contrário à abertura política “lenta e gradual” que se iniciava.

Em abril de 1984, eu era já recém-formado e as coisas eram muito difíceis. Todos os ganhos econômicos dos primeiros anos de ditadura escorriam pelo ralo na década perdida. O brasileiro médio já não tolerava mais militares no poder, muito mais pelo sufoco econômico que por “razões ideológicas”, essa coisa de intelectual. Depois da emocionante mobilização nacional pelo “Diretas Já”, a emenda que restabeleceria a democracia integral no Brasil foi rejeitada no Congresso, após uma manobra governista. Depois, com a mudança de lado de José Sarney, Tancredo Neves conseguiu derrotar, mesmo pelo voto indireto, o governista Mário Andreazza. Tancredo decepcionou a nação e cometeu a deselegância de morrer sem exercer a presidência. Eu estava de plantão naquela noite de domingo em que soubemos que seríamos governados por José Sarney. O camaleão diabólico, exímio pulador de muros, desastrado caçador de boi no pasto, manda até hoje.


Em 1989 entrávamos, enfim, no maravilhoso mundo da democracia, essa fada diáfana de asas frágeis que, queríamos acreditar, nos levaria instantaneamente à felicidade, à riqueza e à fraternidade, que decretaria o fim da mesquinhez e da brutalidade. Que instauraria definitivamente e por decreto a ditadura da virtude. Doce ilusão. Com o tempo descobriríamos dolorosamente que a democracia, óbvio, somos nós, os imperfeitos.


O Brasil se dividia então entre Lula e Fernando Collor, na primeira eleição direta para presidente depois da ditadura. Votei em Lula, diga-se de passagem, para não dizerem que nunca. O que ele teria feito caso vencesse então está enterrado para sempre no cemitério das especulações. O confisco da poupança, grande temor dos que rejeitaram Lula, foi feito por Collor.
Era o tiro que não podia errar e errou. Eu, já casado e com minha primeira filha, que era um duro e não tinha poupança alguma, nem lamentei. Enxugou-se atabalhoadamente o serviço público, abriram-se as fronteiras à importação e expôs-se a protegida e defasada indústria nacional à concorrência dos importados. Era o início da modernização econômica. Nosso sonho era simples: ter um carro importado nem que fosse um Lada, ter um telefone em casa e que ele falasse. O resto é história recente.