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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Mão de Eurico

Eurico nasceu normal. Cresceu por igual até os vinte anos, quando quase parou de crescer. Quase, porque sua mão direita continuou crescendo. Tinha ambições políticas, mas abandonou-as por razões óbvias. Na solidão do banheiro, começou a achar seu pênis pequeno. Tinham medo de cumprimentá-lo. Passou a viver recluso. Numa crise de desespero, empunhou um machado para decepar a aberração, mas a mão esquerda sentiu-se insegura, e, reverente, negou-se a amputar a irmã maior. Ficou cinco dias sem comer, mas acabou sendo dominado pela conformação. Um dia, viu-se compelido a escrever sobre sua angústia. Descobriu-se escritor. Fez sucesso. Usava caneta Pilot grossa nos originais. Aos poucos, porém, percebeu que a mão escrevia idéias que não eram bem as suas. Mas ela escrevia tão bem...

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Serrote de Deus

Ele estava em Brasília, no aniversário de Sílvia, irmã de seu amigo Pedro Luiz. Havia viajado até o Planalto Central para passar a Semana Santa hospedado na casa deles. A festa ia comum e tranquila, até que, como que avisados por uma senha secreta, todos pararam de conversar e um culto improvisado começou na grande sala do apartamento na Asa Sul. Surgiu um violão, entoaram-se belos cânticos, muito bem ensaiados. Porque na igreja católica, que freqüentava no Rio, não se cantava tão bem assim? Depois que alguém deu graças por mais um ano de vida da moça e pelas bênçãos que continuamente caíam sobre aquela família e seus amigos, pediu-se que cada um dos presentes desse o seu testemunho. Que falassem de como Jesus havia entrado em suas vidas e as transformado profundamente. A palavra ia sendo dada a cada um daqueles jovens que, emocionados, às vezes em lágrimas, relatavam como a conversão havia mudado radicalmente seus rumos. Meu Deus, ele pensou, e teve medo por ter pensado aquilo: como pessoas tão jovens e aparentemente comuns poderiam ter vivido vidas tão cheias de tristezas até tão pouco tempo atrás? Que pecados inomináveis poderiam ter cometido? Que sofrimentos indizíveis poderiam ter atormentado suas almas mal saídas da infância? E, no entanto, todos se mostravam emocionados, muitos chegando a lágrimas que lhe pareceram sinceras. Que diria quando chegasse sua vez? Mentiria confessando uma conversão que não havia ocorrido, pelo menos não daquela forma drástica e espetacular? Diria que havia sido invadido pelo Espírito Santo ao se ajoelhar implorando a misericórdia divina?

Na verdade, ele bem havia tentado. O Evangelho que lhe havia sido dado por Pedro Luiz tinha passagens grifadas e numeradas, que dirigiam o leitor a se dar conta da grandeza do amor de Deus, que havia enviado Seu filho querido para que Este trouxesse sobre Si os pecados de toda a humanidade. Então, entregado-O para ser torturado e sacrificado, nos havia livrado do peso de uma culpa ancestral. Talvez valesse a pena tentar, pensara. Sua vida não era exatamente miserável, mas o longo e doloroso processo de separação de seus pais, diante do qual se vira impotente, as dificuldades financeiras que se seguiram, as agruras próprias da adolescência se somavam para configurar uma sensação de inadequação e incerteza. Então, uma noite, por trás da porta fechada de seu quarto, recitou as orações e os pedidos infalíveis que aquele Evangelho comentado lhe instruía a fazer, como quem se deixa fechar na caixa do mágico, só a cabeça de fora, permitindo-se ser serrado ao meio, sem ter certeza absoluta de tratar-se apenas de um truque. Não crendo, mas dando uma chance à credulidade, uma chance de sentir os dentes do serrote lhe abrindo a alma ao meio para que Jesus entrasse. A própria idéia de um truque mágico já o fazia temer que nada de fato ocorreria. Uma vez sentara-se diante de um hipnotizador, desejando sinceramente ser hipnotizado, porém duvidando muito de que algo pudesse ocorrer, como de fato não ocorreu. Vira várias pessoas se deixando hipnotizar, assim como vira uma vez em um templo evangélico mulheres e homens de aparência absolutamente séria e confiável sendo possuídos pelo Espírito Santo e falando línguas ininteligíveis. Seria tão mais fácil se viesse a se tornar um crente, um crédulo. Então ajoelhou-se, orou do mais fundo que pôde de sua alma. Apertou os olhos tentando espremer uma lágrima que teimava em não sair, buscou arrancar de dentro de si um sinal de entrega ao Todo Poderoso. Ficou ajoelhado por longos minutos esperando, não sem algum medo, que o serrote de Deus lhe abrisse a carne e o espírito.

Nada.

Aquele Nada o deixara abandonado na mais pura solidão, sem ninguém que lhe pegasse pela mão e o levasse pelos caminhos da virtude até o paraíso. Se, dali em diante, viesse a viver uma vida virtuosa, não seria por ter-se tornado um zumbi de algum deus. Se viesse a viver uma vida de enganos e mancadas, teria que arcar sozinho com a responsabilidade de seus atos, sem culpar qualquer satanás nem ninguém, deste ou de qualquer outro mundo.

De início, a solidão do Nada o deixara amedrontado e confuso. Aos poucos, no entanto, começou a sentir-se de alguma forma mais forte, mais capaz. Mais compadecido e solidário com outras solidões. Paradoxalmente menos só.

Quando finalmente lhe passaram a palavra, não teve coragem de mentir. Deu parabéns à aniversariante, disse como se sentia sinceramente feliz em estar na presença de amigos, e passou a palavra adiante. Não soube interpretar bem os olhares que lhe lançaram.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Não Deu na Coluna Social

Apertou os olhos, orientando com algum sucesso os dedos, “longos como os de uma pianista”, seu pai dizia, que seguravam agora o lápis delineador. Depois o rímel. Depois, ainda, o batom vermelho vivo, tão vivo que teimava em escapar além dos lábios finos. Penteou demoradamente os cabelos, que a tintura loura já falhava em dissimular o branco. Inclinando o frasco, arrancou um último spray do último Givenchy. Ajustou a echarpe cor de jade ao redor do pescoço longo e ainda elegante: Etevaldo a comprara e presenteara durante a última viagem que fizeram juntos, antes de ele decidir partir sozinho, tão antes dela. Uma pontada no abdome. O alfinete de fraldas, necessário para manter a calça ajustada à cintura mais esbelta do que já fora, teimava em abrir-se de vez em quando. Ficou ainda um momento diante da penteadeira, girando o rosto um pouco à esquerda, depois à direita, como fizera tantas vezes antes, desde que se mudaram, ela e Etevaldo Bittencourt, para aquele casarão na Gávea. Buzinaram. Olhou através das venezianas brancas descascadas: além da floreira cheia de mato viu o táxi que a aguardava. Pegou o casaco cor de creme e olhou-se uma vez mais no espelho. Elegante, e as manchas de gordura no casaco não se via daquela distância.

Do alto das escadarias que levavam ao hall de mármore branco e preto, fechou os olhos. Escutou o som das conversas, os risos discretos, o tilintar das taças, a emanação de perfumes, loções de barba e brilhantinas, o cintilar dos colares, das tiaras e dos solitários. Sentiu os olhares voltando-se para ela. Desceu devagar, menos pela artrose, mais para desfrutar ainda uma vez aquela sensação que tanto a agradava. Não via a sala vazia, nem os vazios nas paredes, onde antes havia alguns Volpi, uma Tarsila, um Portinari e até dois desenhos de Picasso, sacrificados na tentativa de equilibrar as finanças suas e dos filhos. Whisky, o velho cocker spaniel, estava deitado no sofá, imóvel, desde a véspera. Afagou uma vez mais a cabeça de seu último companheiro, meio branca, meio loura, como a sua. Dirigiu-se à grande porta, guarnecida de metais dourados, abriu-a e olhou para trás. Suspirou. Valera a pena cada festa, cada gota de champanhe, cada jantar, cada viagem. Saiu, deixando atrás de si a porta destrancada.

“Para o Copacabana Palace, por favor, via Delfim Moreira e Vieira Souto”. Pôs os óculos escuros e acompanhou a paisagem da Zona Sul, enquanto apertava o vidrinho que trazia no bolso, cheio de bolinhas cor de chumbo. Com sorte, cairia dentro da piscina.

domingo, 28 de novembro de 2010

Nossa Vitória Contra a Barbárie

O regime militar que se seguiu à revolução de 1964 deixou como herança uma compreensível aversão a tudo que pudesse ser identificado com o regime de exceção e seus desmandos. Depois, com a volta da democracia, foram aprovadas leis que, juntamente com a nova Constituição, visavam proteger a população em geral, e, especificamente os políticos, seus representantes, de cassações sumárias e de processos na justiça comum, garantindo a eles foro privilegiado. Paralelamente os governadores eleitos trataram de desaparelhar a polícia, vista como instrumento de repressão a serviço da ditadura. No Rio de Janeiro, na transição do Governo Chagas Freitas para o de Leonel Brizola, a ordem passou a ser a de respeitar os direitos humanos de qualquer cidadão, trabalhador ou bandido. Perfeito. Com certeza havia desmandos, mas o que se seguiu na prática foi uma severa restrição à ação da polícia e dos órgãos fiscalizadores do Estado, privilegiando-se de forma louvável a busca da integração das populações mais carentes e marginalizadas ao grosso da sociedade através da educação. Brizola ergueu centenas de CIEPs – Centros Integrados de Educação Pública - no Estado do Rio, quase sempre junto aos bairros mais carentes. Neles, os jovens estudariam em horário integral, afastando-se do ócio e da tentação do crime. Porém, lamentavelmente, paralisou-se a repressão policial a este mesmo crime, vista como uma agressão de um sistema elitista contra a s populações menos favorecidas. Fez-se vista grossa à proliferação de camelôs por todas as calçadas da cidade, ao transporte ilegal, ao jogo do bicho e a diversas outras atividades da contravenção e, na mesma esteira, da ilegalidade. Foi a senha para que o tráfico proliferasse sem medo nas comunidades mais carentes, sendo muito pouco incomodado.

No entanto, foi justamente a população das favelas a que mais sofreu as conseqüências dessa política tão bem intencionada quanto desastrosa para o Rio. A população “do asfalto”, quando é eventualmente agredida por bandidos, ganha as manchetes dos grandes jornais e organiza passeatas de domingo na orla da Zona Sul, num pedido justo e lícito de paz e repressão ao crime. Já a população das favelas passou a ver as quadrilhas que dominaram suas comunidades imporem diuturnamente o terror, aliciarem seus jovens para o crime, cobrar pedágio, monopolizarem a distribuição de gás, e motivarem ações pontuais e desordenadas do Estado, frequentemente com “perdas colaterais” que, no jargão da polícia, significa morte de inocentes. Pior, as favelas passaram a ser palco freqüente de guerras entre facções rivais por domínio de território para o crime.

Ainda na esteira do vazio da lei e da falta de presença do Estado, pequenos comerciantes, condomínios, bancos, boates, enfim, muitos setores que se viam desprotegidos passaram a contratar segurança particular, o chamado segundo turno dos policiais, que precisavam complementar os magros rendimentos pagos pelo Estado.

O resultado de tudo isso é o que se viu até então. Policiais mal remunerados, mal equipados, e mal vistos pela população entraram em contato pernicioso com o crime encastelado e pouco incomodado nas favelas, descambando inevitavelmente na corrupção policial. A “polícia paralela” que cresceu financiada pela própria sociedade para combater o crime onde o Estado não o fazia fugiu ao controle, instalando-se ela própria nas comunidades e impondo um regime de terror e opressão tão cruel quanto o dos bandidos. Na zona de proteção das assembléias legislativas e do Congresso Nacional, as milícias e o tráfico passaram a infiltrar seus representantes com o apoio ingênuo dos mais pobres; o judiciário passou a ser assediado com subornos polpudos, muitas vezes eficazes; candidatos a cargos executivos passaram a receber tentadores ofertas de donativos de campanha Criou-se para o crime um escudo de proteção eficiente nas esferas mais elevadas do próprio Estado.

Finalmente a Sociedade parece ter-se dado conta dos equívocos do passado recente. A virtual invulnerabilidade do legislativo e do judiciário passou a ser vista como um dispositivo exagerado e pernicioso. A Lei da Ficha Limpa foi aprovada com má vontade pelo Congresso por força do clamor popular, embora a sua aplicação imediata ainda dependa do voto do ocupante a ser escolhido para cadeira vaga no STJ.

Na improvável área da Cultura, o truculento, idealista e incorruptível Capitão Nascimento, personagem de cinema idealizado a partir de livro “A Elite da Tropa”, escrito por ex-policiais do BOPE e um antropólogo, ajudou a virar o jogo da opinião pública. Ao fim de cada sessão do primeiro e do segundo episódios da série Tropa de Elite a audiência invariavelmente aplaude de pé. Foi a senha para o resgate da auto-estima da porção ética e honesta da polícia.

Faltava a gota d’água, que veio justamente de uma ordem desastrada oriunda dos criminosos detidos em presídios de segurança máxima, que tentaram implantar o terror, contando com a covardia das autoridades para encurralar o Estado e a sociedade. O tiro saiu pela culatra, e a casa do crime organizado começou a cair.

Ordenou-se a invasão das comunidades de Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão na Zona da Leopoldina do Rio, de onde teriam partido as ações terroristas. Ressalte-se o papel da Imprensa, cuja cobertura implacável colocou a Sociedade como testemunha das ações, contribuindo para uma ação surpreendentemente civilizada, embora não menos dura, dos órgãos policiais e das forças armadas. Não houve chacina, e as “perdas colaterais” foram insignificantes diante da magnitude da batalha que se apresentava. Alguns, sedentos de sangue, podem ter ficado frustrados, mas o Brasil sinalizou para o mundo que somos um país civilizado.

Parece-me que a Queda do Complexo do Alemão é um dia histórico para o Rio e para o Brasil, talvez tão simbólico quanto a Queda da Bastilha foi para a França e a democracia como um todo. A Sociedade começa a entender que ninguém, pertencente a grupo reprimido no passado por questões de ideologia, política, religião ou raça, pode ter privilégios legais como forma de compensação arrependida. Na sociedade igualitária, todos devem receber oportunidades e tratamentos iguais. Da Lei inclusive.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Repente

Na Oficina de Textos
Da Bebel Pantaleão
Perguntei se tinha espaço
Na turma de redação
Prum marmanjo barbado
Aprender a dar o recado
Da voz da imaginação.

Depois de umas semanas
O telefone tocou:
Era alguém que me dizia
Que uma turma começou,
Gente com a mesma vontade
De se reunir de tarde
E aprender com professor.

Aprender a dizer certo,
Com exatidão e com graça
O que a idéia imagina,
O que a memória repassa
Sem dizer nome do boi
Nem exato onde foi
Pra não ofender o comparsa.

Aprender a rima e métrica,
Estruturar poesia,
Fluxo de pensamento
Soneto, trova e sextilha.
A professora Fabiana,
Pessoa muito bacana,
Foi nos passando a cartilha.

A turma é heterogênea,
Tem de toda profissão:
Oficial de Justiça,
Promotor com promoção,
Médico cardiologista,
Dona de casa e surfista,
Humorista do Faustão

Hoje mais que uma turma
Somos um grupo porreta
Que curte cada reunião,
E essa rima do capeta,
Que pra fugir da armadilha
E não constranger a famlília
Vou rimar com borboleta.

domingo, 14 de novembro de 2010

O Rival


Publico aqui o conto "O Rival" que saiu ontem no caderno Prosa e Verso de O Globo. O conto está classificado entre os 10 finalistas do concurso Contos do Rio do jornal, e teve como tema a foto escolhida pelos leitores, de autoria de Márcia Folleto. O resultado sai daqui a duas semanas, no dia 27 de novembro.


Fofinho. Não era adjetivo, era substantivo. Fofinho era o nome do cachorro de Eulália, a noiva de Rodrigo. Um pequeno poodle branco, ou pior: branquinho. Nos últimos treze anos, ele era o único a dividir com Eulália o pequeno apartamento alugado. Vigilante, bastava Rodrigo abrir a porta do elevador para que Fofinho disparasse a latir contínua e insistentemente, tarefa na qual persistia com canina diligência por longo tempo, mesmo depois que Rodrigo adentrava a sala de Eulália. Como se sua missão na terra fosse irritar o moço. Rodrigo odiava Fofinho só um pouquinho menos do que amava Eulália, e só o amor que tinha por ela lhe dava forças para suportar aquela irritação em quatro patas.

Eulália era daquelas moças que, não se sabe por quê, são esquecidas pelos caprichosos deuses do amor. Apesar da devoção por Santo Antônio, herdada da mãe portuguesa, via as amigas e colegas noivarem, casarem e até se separarem, sem que ela encontrasse sua cara-metade. Não que fosse desprovida de predicados, muito pelo contrário. Tinha o temperamento vivo, sem ser vulgar, e os olhos ternos e curiosos, com um brilho mais visto em adolescentes que em mulheres de trinta e cinco. Fisicamente tinha também muitos encantos, coroados por uma bela cabeleira negra, que, no mais das vezes, trazia contida, como que aguardando quem lhe libertasse de uma só feita o coração e os cabelos. Muitas vezes era a custo que sublimava uma incômoda sensação de que a vida lhe era injusta. Expiava essas ideias amargas nas orações ao santo, que buscava, quando mais jovem, apenas para reencontrar objetos perdidos, mas a quem, cada vez mais, pedia que não a deixasse perder a esperança de um amor correspondido.

Um santo pode, aos céticos, parecer mouco, mas, a seu tempo, não deixa desassistida a oração de quem crê. Numa fria tarde de junho, Eulália comprimia-se entre os que buscavam um pãozinho bento na festa do casamenteiro de Pádua, no convento que encima o Largo da Carioca. Sua mão estendida alcançou o último pão da cesta junto com uma outra mão, esta masculina. Olhou surpresa o dono daqueles dedos que roçavam os seus: um moço que lhe pareceu simpático e de olhar sincero. Coração aos pulos, dividiu com ele o pão, pressentindo naquilo a mão milagrosa do santo. Desceram juntos as escadas até o Largo e combinaram um novo encontro.

Desde então, Rodrigo e Eulália namoravam. Quando ela o convidou ao seu apartamento na Glória, Rodrigo foi apresentado a Fofinho, e chegou a dizer, para agradá-la, que ele fazia jus ao nome. Não se deu conta, a princípio, que tinha ali um rival disposto a vender caro a perda do posto de primeiro no coração da moça. Mais tarde, no sofá, quando suas mãos buscavam conhecer melhor a anatomia da amada, foi surpreendido, sem um rosnado de aviso, por uma feroz mordida em sua mão esquerda. Sangue pingando, luzes acesas, antisséptico e curativo, fim de clima. A noite promissora morreu ali, mas uma rivalidade feroz estava só nascendo.

As intenções de Rodrigo, com o tempo, revelaram-se as melhores. Funcionário público recém-empossado, deixara a casa dos pais em Vassouras para morar sozinho no Rio. Aguardava a confirmação no cargo, que viria ao fim do estágio probatório, para então pedir a mão de Eulália. Por amor, suportou os rosnados e latidos de seu rival canino. Chegou a pensar em canicídio ou em um ultimato, mas Eulália era tão apegada ao cãozinho que ele temia pôr a perder o amor da noiva. Aguentou firme, inquirindo, sempre que dava com um veterinário, a expectativa de sobrevida de um poodle de treze anos. Mas, apesar do reumatismo e da catarata, Fofinho também aguentava firme.

Um dia, porém, a natureza fez valer suas regras inexoráveis: depois de uma pneumonia, Fofinho bateu as botinhas de tricô. Por coincidência, isso se deu apenas uma semana antes da efetivação de Rodrigo, com a correspondente elevação nos vencimentos. Eulália verteu lágrimas de tristeza pela perda do velho amigo, mas logo se animou com os preparativos para o casório.

Em três meses, casavam-se na igreja do mesmo mosteiro onde o santo de devoção lhes servira de cupido. Estavam radiantes, ela com o rosto lindamente emoldurado pelos cabelos negros em contraste com o branco do vestido. Ele, feliz e realizado, surpreendia-se impactado com a beleza da noiva.

Finda a cerimônia, no alto das escadarias, noivos, padrinhos e convidados expandiam-se ruidosos na habitual alegria de cumprimentos e fotos. Moças solteiras, desejosas de igual ventura, agrupavam-se à espera do voo do buquê. Aos poucos, porém, cada olhar foi atraído para o alto, e o alvoroço foi gradualmente amortecido: o sol ia sendo encoberto, naquela tarde de céu até então imaculadamente azul. Uma enorme nuvem, muito branca e perfeitamente redonda, como uma gigantesca e maciça bola de algodão, pairou ameaçadora sobre o Largo da Carioca, causando uma vaga sensação de desconforto. Então, saído dela, um único raio riscou o céu, no exato instante em que Rodrigo sentiu uma dor lancinante na mão esquerda.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Tempos Modernos

“Carlinha, meu amor! Eu já estava preocupado, você demorou.”

Gustavo havia cochilado em frente à TV, enquanto assistia o Saia Justa, e acordou assustado quando Carla, sua mulher, abriu a porta do apartamento.

Ele gostava de assistir o Saia Justa, o Mothern e outros programas do GNT. Queria entender as mulheres, e estes programas eram, ele acreditava, uma boa fonte de informação sobre essa nova criatura social, a Mulher Moderna. Além do que, achava a Maitê gatíssima, apesar da idade. Tinha até comprado e lido dois livros dela. Gustavo considerava-se um homem moderno, antenado com as recentes conquistas femininas. Dizia nas conversas com os amigos que as mulheres estavam dominando o mundo sem que os homens se dessem conta, e que, se eles não acordassem a tempo, logo estariam completamente subjugados. Na véspera, na roda de chope com seus dois amigos inseparáveis, Fabinho e Marcelão, este dera gargalhadas diante das preocupações de Gustavo:

“Tá pra nascer a mulher que vai mandar em mim. Tirando mamãe, lógico, assim mesmo só até eu sair de casa.”

Marcelo havia morado com a mãe, que era fiscal de renda aposentada, até os trinta e três, quando casou-se com Ângela e mudou-se para o apartamento dela. Agora estava morando de favor com Fabinho, desde quando a Ângela descobrira que ele estava tendo um caso com a chefe do departamento onde ele trabalhava. Ângela já havia perdoado uma primeira (nas contas dela) pulada de muro do Marcelo, mas agora, depois de ler os e-mails calientes que ele havia esquecido de deletar, não teve dúvidas: botou ele pra fora de casa no mesmo dia. Também, todos concordavam que ele tinha sido um grande vacilão ao usar como senha do Outlook a data de casamento. E para complicar, a chefe ainda acabou demitindo-o duas semanas depois.

“Marcelão, abre o olho! Então você não vê que nós estamos ficando pra trás?”

“Pra trás nada”, dizia ele pedindo outro chope. Dera para beber mais do que o razoável depois da separação. Dizia que agora fazia o que bem entendia, sem mulher nenhuma para encher-lhe o saco, mas na semana anterior, do alto de um porre, confessara, em choro convulsivo, que não sabia como seguir vivendo sem a Ângela.

“Quero ver aquela ingrata me tirar dinheiro. Não estou nem procurando emprego. Eu já falei com o meu advogado, Dr. Rogério, e eu é que vou pedir pensão pra ela, pra ela deixar de ser besta. Vou viver à custa da safada, ela vai ver.”

Fabinho, que se mantivera calado, com um ar de preocupação, interrompeu as bravatas de Marcelo: “Vamos, Marcelão, já chega. Vamos embora que está na hora de eu pegar a Júlia, que ela já está saindo da pós-graduação, e fica uma arara quando eu atraso”.

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Gustavo procurou o controle remoto entre as almofadas e desligou a TV. Era aniversário de casamento, e ele tinha planejado uma noite romântica, aproveitando que sua filha tinha ido acampar com o namorado. Colocara um prosecco na geladeira, pois Carlinha adorava prosecco, embora ele mesmo preferisse vinho tinto, e deixara o CD da Diana Krall engatilhado no aparelho de som. O atraso de Carlinha não estava nos seus planos. Ela deu-lhe um beijo chocho no alto da cabeça, onde o desmatamento avançava impune, sem qualquer controle do Ibama.

“Oi, Gugu.”

“Que houve amor? Até cochilei. Que horas são? Caramba, dez e dez. Estava aonde?”

“Na despedida de solteiras da Carol e da Bia,” disse ela enquanto caminhava para a suíte tirando os sapatos, Gustavo atrás dela. “Elas vão viajar amanhã. Te avisei ontem que hoje ia demorar, esqueceu?”

“É mesmo, você falou, meu amor, eu é que esqueci”

“Você anda muito esquecido ultimamente, Gustavo. Já marcou o neurologista como eu te falei? Garanto que ainda não. Você nunca faz o que eu falo. Ai, tô morta, e amanhã ainda tenho a apresentação do projeto logo de manhã para aquele cliente de São Paulo. Vou ter que acordar cedinho para revisar as planilhas antes do Pilates. Em vez de ficar aí parado, faz um chazinho de camomila pro seu amorzinho, que eu quero dormir logo.”

Gustavo foi preparar o chazinho. Quando Carla saiu do banho e veio para a cozinha de meias de lã e pijama de calça comprida, ele suspirou arrependido de ter tomado o Viagra.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Olhos Verdes

Nos primeiros dias, seus poucos amigos apareciam, geralmente pedalando suas bicicletas, sentavam a seu lado na calçada e puxavam assunto. Talvez para distraí-lo de seu intento, talvez para avaliar se ele havia perdido definitivamente o que lhe restava de juízo. Mas nenhuma palavra, nenhum argumento lógico poderia abrir a menor brecha ou mesmo arranhar de leve sua convicção. Sua decisão era fruto de outra lógica, uma lógica superior, proveniente de um universo mais belo, mais claro, pleno de sentido. Nunca antes havia visto as coisas com tanta clareza. Como duvidava que qualquer outra pessoa pudesse ter um vislumbre que fosse daquilo que para ele era sólido e nítido, não tentava explicar. Não se incomodava que o chamassem de louco. Ela, porém, era diferente. Mais cedo ou mais tarde ela certamente entenderia.

Seus olhos fixavam, dia após dia, a varanda do terceiro andar do pequeno prédio de apartamentos do outro lado da rua. A rotina que ali se sucedia já lhe era familiar. Às primeiras luzes da manhã, uma lâmpada se acendia por detrás da vidraça do quarto por cerca de dezoito minutos e depois se apagava. Quinze minutos depois se acendia novamente, voltava a se apagar, e em mais três ou quatro minutos ela surgia, perfeita, pela portaria do prédio, ofuscando o mundo, enchendo-o com aromas doces de sabonete e lavanda. Seus cabelos longos oscilavam, o louro escurecido pela umidade do banho recém tomado, a pele clara com brilhos suaves de cetim, os olhos verdes como raios de sol atravessando uma onda do mar de manhã cedo. Por uma fração de segundo ela dirigia aquelas duas luzes verdes em direção a ele e então seguia com passos de fada, flutuando um palmo acima das pedras da calçada em direção à escola. Ao fim da tarde, a cena se repetia às avessas, como um vídeo rebobinado.

Nas primeiras semanas, nas raras vezes em que se percebia com fome, ele servia-se da padaria que ficava às suas costas, defronte ao apartamento dela. Servia-se também do banheiro da padaria quando necessário, embora cada vez menos. Aos poucos, os raros amigos se tornaram ainda mais raros. Eles apenas sentavam-se em silêncio a seu lado, e depois nem isso. Passavam lentos em suas bicicletas, olhavam compadecidos e seguiam em frente.

Não havia, porém, razão para compaixão. Ele era feliz. Estava possuído pelo sentido do universo. Mais dia menos dia, ela haveria de render-se à sua irresistível força. Enquanto isso, por quanto tempo fosse necessário, ele permaneceria ali, nutrindo-se com aquela visão celestial a cada manhã e a cada tarde.

O pai dela ameaçou-o várias vezes, dizia que chamaria a polícia. Um dia, a polícia realmente veio e o levou. Por uma semana ele definhou sem poder nutrir-se da luz de esmeralda daqueles olhos. O delegado cansou-se de esperar por uma acusação formal e acabou libertando-o. Por duas outras vezes, foi insultado e depois espancado pelos irmãos dela. Não esboçou nenhuma reação, nem para se proteger, atitude que causava nos agressores um mal estar que acabava tornando-se mais incômodo que a raiva. Então paravam de bater. Já ele, não sentia raiva. Apenas incomodava-se um pouco com o fato de os hematomas ao redor dos olhos atrapalharem temporariamente sua visão.

Com o passar do tempo, acabaram acostumando-se com sua presença. Os cachorrinhos urinavam em suas pernas. As formigas que subiam pelo seu corpo já não incomodavam mais e o musgo começou a tingir de verde as suas roupas. Já não precisava dos pães da padaria e, conseqüentemente, também não precisava do banheiro da padaria. Aprendeu a permanecer de pé indefinidamente, passou a piscar a intervalos cada vez maiores para não perder por nem um segundo a possibilidade de vê-la. Passarinhos passaram a pousar em sua cabeça, tentando arrancar tufos de cabelo para forrar seus ninhos. Por fim, passaram a fazer seus ninhos em seus longos braços. A janela do terceiro andar acabou por ficar à altura de seus olhos. Agora tinha que olhar para baixo para vê-la sair pela porta do prédio.

Hoje os cabelos dela são brancos, mas ondas claras de mar e sol ainda jorram de seus olhos verdes a cada manhã. Ela ainda flutua com sua bengala, quase tocando a calçada, depois de olhar para o velho tronco. Se for primavera, ele deixa, então, cair uma flor.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Budismo, Futebol, Política e Felicidade

Por que tenho e temos opinião formada sobre tantas coisas? Por que somos Flamengo ou Fluminense, PT ou PSDB, gostamos ou não de pagode, rock, música clássica, mulheres louras e magras ou morenas bem fornidas, ou não gostamos de mulher? As preferências pessoais são livres, e é saudável que existam diferenças. Que seria das louras magras se todos preferissem as morenas roliças? Tenho tentado pensar de forma desapaixonada nessas questões. Torço pelo Fluminense, certamente não porque seja o melhor time, mas porque meu avô era Fluminense, e, por causa do meu avô, meu pai também era Fluminense. Se não fossem, eu poderia ser Flamengo ou Vasco. Se torcer por um time fosse algo racional eu hoje torceria para o São Paulo, talvez. Ser homo ou heterossexual, gostar de praia ou montanha, ser extrovertido ou calado é tudo questão de carma. A grande maioria de nossas escolhas é irracional e automática, conseqüência de muitas vidas, nossas ou de outros.

Em assuntos sem maiores conseqüências, como futebol, pouca diferença faz que escolhas fazemos, embora existam muitos que vêem o futebol como assunto seriíssimo, a ponto de provocar ódios e mortes. No Maracanã, quando o Fluminense faz um gol, pulo e comemoro, mas não consigo mais deixar de olhar a torcida adversária calada e triste. Inversamente, quando levamos um gol e a torcida adversária comemora, penso que toda aquela gente também merece alegria. Da perspectiva de alguém lá do alto, de Google Earth, como diz minha amiga Karla, talvez fosse mais justo a torcida do Flamengo, mais numerosa, comemorar. Embora continue gostando muito de futebol, torcer nunca mais será o mesmo para mim.

Perigoso é quando pensamos que nossas escolhas são as únicas certas e passamos a hostilizar quem é diferente, pensa diferente ou apenas nasceu em um lugar diferente. Somos iguais em um aspecto fundamental, o desejo de sermos felizes, e, mais que isso, o direito à felicidade. O traficante pensa que sua atividade é um atalho para a felicidade. Que a polícia ou quadrilha adversária querem bloquear seu caminho até lá, justificando assassinatos. Quando alguém resiste a entregar seu carro ou sua bolsa a um ladrão, está perigosamente resistindo a entregar o que, para ele, parece ser a passagem para a felicidade. Da mesma forma, a vítima do assalto não quer que alguém leve embora a felicidade armazenada na bolsa ou no valor do carro. O corrupto quer alcançar uma casa na praia, um carrão, belas mulheres, sensação de poder, alguns milhões em um paraíso fiscal, qualquer coisa que abafe a angústia de se sentir miserável e infeliz a cada manhã. O argentino que quer ser campeão mundial, o colega de trabalho que disputa conosco uma promoção, o motorista do outro carro que disputa conosco uma vaga no shopping lotado, o chefe que parece nos exigir mais do que podemos ou queremos dar, todos tentam fugir da infelicidade.

Porém, qualquer idéia de sucesso que passe pela dor alheia é ilusória. Se buscássemos matar a sede de felicidade na fonte correta, se víssemos com clareza e caminhássemos na direção correta, caminharíamos todos na mesma direção, cada um a seu modo, e não haveria disputas. Quando alguém ergue a cabeça acima da manada, do ponto de vista do Google Earth ou mais alto ainda, e vê além da ignorância, não há mais separação. Nada que antes dividia faz mais sentido. Só faz sentido o que é bom para o todo.

Seria bom se, cada vez que eu encontrasse resistência ou ouvisse uma opinião diferente da minha, eu pensasse nisso. Creio que a bússola está dentro de nós, indicando o Norte. No silêncio podemos ouvir a parte de nós que é anterior à ignorância, que escuta além do ruído, e vê além dos obstáculos.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O Samba do Eleitor Doido

Dilma ou Serra, um dos dois, é um grande mentiroso. Porque um diz que é o máximo, e que a outra não presta, ou será que é o contrário? Pior é se os dois estiverem certos. Qualquer um dos dois vai fazer tudo que não foi feito até aqui pelo Brasil e pelos brasileiros nos próximos quatro anos. Só não sei por quê que os partidos deles não fizeram antes. Acho que eles estavam guardando as boas surpresas pro fim. Só tenho medo do que vem depois do fim. Eu sei mais é que vou torcer pelo meu candidato até o final do campeonato. Que o Flamengo foi campeão ano passado, e ninguém esperava, chato é que depois disseram umas coisas do goleiro, que tá até preso, que eu não sei se aquela vadia está mesmo morta, que dizem que ela era, eu mesmo não sei, ou se é tudo armação. Mas ele defendia muitos pênaltis, e o Flamengo foi campeão, então foi legal. Se ele, meu candidato, está na frente, vou torcer para o jogo acabar logo. Se ele estiver atrás, vou torcer que ele vire o jogo, pois prorrogação ele já conseguiu. Também acho que se ele ou ela perderem, não vai ser assim tão ruim, porque ele está prometendo fazer as mesmas coisas que ela, e ela vai fazer as mesmas coisas que ele, então, se eles não estão mentindo, que eu quero acreditar que não estão, vai dar no mesmo e vai ser bom pra diacho. Vai ter hospital aqui na porta mesmo, com tomografia, mamografia, cintigrafia, serigrafia e pornografia, água gelada e enfermeiras bonitas. Meu filho caçula vai ter duas professoras na sala de aula. Vai ser bom, pois assim ele vai ter uma sala de aula. E meu mais velho vai poder estudar em escola técnica pra aprender a tirar petróleo do pré-sal, que é nosso e ninguém tasca, eu vi primeiro, e vai ter metrô daqui do sertão até o Maracanã, pra eu assistir a Olimpíada e Copa do Mundo, isso se eu não estiver a fim de ver tudo pela banda larga, que dizem que é mais larga que a da mulher melancia, e que por ela passa tudo muito, muito rápido, tão rápido que eu vou ter que aprender a ler de carreirinha, mas a Dilma e o Serra já disseram que eu vou aprender, que não vai ter mais analfabeto no Brasil, e aí vai ter até Luz Para Todos preu ligar aquele trem de computador, de marca Genérica mesmo, tanto faz. Só tô com medo que a Dilma, resolva agora botar na cadeia quem já fez aborto, que antes ela não botava, mas agora sei não, que aí eu mais Maria távamos fornicados, mais que os gays, que eu não entendi ainda se vão ou não vão poder casar, que aí é que vai ser mesmo o fim do mundo, que o pastor falou isso, e eu ia pro inferno me juntar ao FHC, que foi o diabo na Terra, mas se ela, a Dilma, me perdoar, eu vou com o Lula pro céu, que ele já vai estar lá no lugar de São Pedro, que também tem barba, e nem vai ficar tão diferente assim. Que no inferno vão estar também o Zé Dirceu, o Sarney, o Collor e a Erenice, isso se não privatizarem o inferno e demitirem eles, mas dizem que não tem perigo não. Mas o Serra é mais feio que a necessidade, e a Dilma parece com a mulher do Tião Bobinho, que apanha dela, mas na missa ela só aparece rindo, mas eu é que sei. Dizem que ela foi presa, a Dilma, e que o Tião Bobinho não devia ter medo de dar queixa. O Bobinho não sabe que essa tal Maria da Penha vai ajudar ele a parar de apanhar dela, não da Dilma, mas da mulher do Tião. Só sei que eu voto em quem a Marina mandar, que eu gostei dela, meio magrelinha, que eu gosto de mais carne, mas ela tá perto de Deus, que eu sei, e ela é direita por que nunca foi presidente, mas se já tivesse sido, sei não, mas ela não foi e é direita. Então, o que ela mandar eu faço, e se ela não mandar, eu não sei o que é que eu faço. O Tião Bobinho diz pra eu parar de ser bobo, que num devia acreditar tanto, mas eu acredito sempre e eu vou votar, que eu sei que vai ser muito bom daqui pra frente.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A Outra


Os garçons começavam a circular as bandejas pelo salão de festas do Clube Caiçaras. Os primeiros convidados a cumprimentar os noivos começavam a ocupar seus lugares à mesa, enquanto o quarteto de cordas preparava-se para executar uma peça barroca. A fila de cumprimentos estendia-se além das portas do salão finamente decorado com flores tropicais, desaparecendo além da vista pelo jardim. Uma brisa fresca, quase fria, vinda da Lagoa Rodrigo de Freitas e, mais além, do mar de Ipanema, entrava pelo salão naquele final de maio.

O noivo, porém, suava. Já por duas vezes Ricardo tirara o lenço de seda da lapela e enxugara as gotas que teimavam em brotar em sua testa. Aquela era para ser uma noite de despreocupada alegria, quando estariam mesclados os amigos e familiares seus e de Flávia que, de agora em diante, passavam a ser uma só família.

Despreocupação, entretanto, era um estado de espírito que Ricardo não freqüentava havia duas semanas, desde quando a faixa aparecera estendida numa manhã de sábado entre um poste e uma árvore, defronte ao hospital de seu pai, no Grajaú. Dizia: “Ricardo: estarei no seu casamento. Assinado: a Outra”.

Na verdade, ele nem chegara a ver a faixa. O velho Dr. Gilberto, seu pai, a mandara arrancar ainda antes das oito da manhã. Por sorte, Dr. Gilberto ainda madrugava no hospital, sete dias por semana. Era unanimidade que seu olho de dono, sempre presente, associado à sua invejável capacidade de manter-se atualizado com os avanços da medicina e da gerência empresarial (ou “business management”, como ele aprendera e gostava de repetir de uns tempos para cá) eram responsáveis pela transformação da pequena clínica obstétrica da zona norte num dos maiores e melhores hospitais do Rio de Janeiro.

Apesar da presteza na intervenção, no Hospital Anchieta não se falou em outra coisa desde então. Convidados indecisos imediatamente decidiram-se por ir ao casório. Os que haviam decidido não ir subitamente corriam a alugar vestidos e a mandar seus melhores ternos para as tinturarias. Quem seria ela, a Outra, que ameaçava roubar a cena e os flashes naquele casamento marcado havia mais de ano?

Chamado pelo pai às explicações, Ricardo garantiu que aquilo não passava de um trote “de muito mau gosto, por sinal” da sua turma de amigos das noitadas de sexta-feira. O velho não achou graça alguma, vai lá que aquilo chega aos ouvidos da Flavinha, que ele gostava tanto, ia ser um desgosto muito grande para ela, mesmo sendo brincadeira, que ela não merecia que aquilo nem de leve pudesse ser motivo de suspeitas de quem quer que fosse.

- Você me garante que é só uma brincadeira de mau gosto, não é, meu filho? Não vá dar esse desgosto a seu pai. Não quero vexames na frente de toda aquela gente.

Claro que era brincadeira, que o velho ficasse tranqüilo, logo ele, um grande gozador.

Dr. Gilberto tinha genuína simpatia por Flávia, a quem já chamava de filha. Entre namoro e noivado já era uma convivência de alguns anos, que resistira bravamente à temporada do filho nos Estados Unidos, o que contrariara muitas previsões não totalmente isentas de inveja mal disfarçada. Mas, além de futura mãe de seus netos, a iminente entrada de Flávia para a família Souza Dias tinha implicações adicionais, que o próprio Dr. Gilberto esquivava-se em trazer para o nível da consciência. A futura nora representava uma injeção de sangue azul em sua descendência, uma chancela aos esforços dele próprio e de seus pais, imigrantes portugueses que deram duro no pequeno negócio de secos e molhados para fazer doutor pelo menos um de seus vários filhos. Pois não há ninguém que faça fortuna na Baixada ou no Subúrbio, por mais bem sucedido, admirado e invejado que venha a ser em sua região de origem, que não tenha mais ou menos vagas dores de cotovelo e sentimentos de inadequação ao transitar entre os esnobes nascidos e criados à beira-mar, nas terras do Leblon, Gávea, Ipanema e Jardim Botânico, no distante e maravilhoso mundo do lado oposto do maciço da Tijuca. Mesmo que muitos deles fossem financeiramente mal das pernas, sempre formavam rodinhas exclusivas nas festas e recepções onde o Dr. Gilberto impusera sua presença desde os dois triênios em que ocupou a presidência do Sindicato dos Hospitais e Clínicas do Rio de Janeiro. O velho médico do Grajaú nunca conseguira livrar-se da desagradável sensação de ser não mais que um intruso tolerado naquele meio.

Em relação ao negócio da família, Dr. Gilberto começava a antever um futuro em que passaria muitas manhãs paparicando os netos, transferindo gradualmente as responsabilidades da administração do hospital para Ricardo, seu filho mais novo. Gustavo, o mais velho, contrariou o desejo do pai e decidiu-se pelo Direito. Já Ricardo, desde os tempos de ginásio, tinha gosto em acompanhar o pai na ronda pelas enfermarias, centro cirúrgico e mesmo pela farmácia e almoxarifado do Hospital Anchieta. Com aprovação do pai, declinou de seguir-lhe a especialidade de ginecologia e obstetrícia, optando por neurocirurgia e especializando-se em intervenções percutâneas, tendo o pai custeado, logo após o término da residência médica, um ano de especialização em Boston.

Ricardo conhecera Flávia ainda na faculdade, ele no último ano, ela ainda no terceiro. Impressionou-o a beleza elegante, os cabelos longos e finos como o de uma criança, que emolduravam um rosto clássico, iluminado por um constante sorriso, como uma Mona Lisa. Flávia era inteligente, tinha senso de humor agudo e raciocínio rápido. Tinha elevado conceito na faculdade, não só pela beleza, como pelo desempenho acadêmico. Muitas vezes ela ouvira conselhos de que ganharia mais como modelo do que como médica. Mas Flávia tinha paixão pela carreira que escolhera. Seu pai e seu avô eram também médicos, ambos conceituados professores universitários.

Hipnotizado por seu magnetismo, Ricardo levou meses cortejando-a e tendo que refinar sua técnica de abordagem que, em função de sua própria beleza física, nunca precisara de grande aperfeiçoamento. Flávia rechaçou seus ataques durante meses, até ceder à insistência e à inegável simpatia de Ricardo. Desde o momento em que passaram a andar juntos, as qualidades de um iluminaram e realçaram as do outro. Tornaram-se o casal mais admirado e comentado na faculdade, nas festas e onde quer que aparecessem juntos. Dizia-se que eram perfeitos um para o outro, e eles próprios acabaram por convencer-se de que esta era uma verdade imposta pelo destino. O noivado não demorou a ser anunciado.

Como é comum entre as personalidades expansivas e seguras de si, Ricardo sentia que a vida de solteiro não cabia ainda inteiramente na dedicação à Flávia. Muitas vezes, e sempre que ela abria mão de festas e eventos noturnos em função do estudo, Ricardo juntava-se a seus amigos de infância e de subúrbio e esticava as noites nos bares da zona norte e da zona oeste. Adorava rodas de samba e de pagode. Era visível que, então, sentia-se em seu ambiente natural, rindo alto, falando o que lhe viesse à cabeça e bebendo cerveja no gargalo. Ali também era a referência dos amigos e o centro das atenções das garotas, entre as quais borboleteava sem demorar-se muito com nenhuma delas.

Foi então que surgiu Simone, a mais bela flor morena das noites do Méier. Simone identificou e decifrou de imediato qual era o jogo de Ricardo e, deliberadamente, esquivou-se de jogar nas regras dele. Equilibrando a atração que sentia por ele e a segurança em seus próprios encantos, estabeleceu um jogo paralelo, no qual era ela quem dava as cartas. Rechaçou-o diversas vezes, surgia e desaparecia como que por mágica, tornando-se, em pouco tempo, uma presença recorrente no imaginário de Ricardo durante a semana. Só quando teve certeza de que não seria apenas mais uma, cedeu às atenções do jovem médico.

Simone, em muitos aspectos, contrastava vivamente com Flávia, cuja existência ela ignorava. Era mais baixa, mais morena, mais roliça e mais desinibida que sua desconhecida rival, mas não menos inteligente ou decidida. Sambava com graça, ria alto e agitava sua cabeleira negra com precisão certeira. Ela e Ricardo passaram a ser vistos juntos com freqüência na noite suburbana, sempre que, como ela acreditava, os plantões e os estudos de Ricardo permitiam. Este, por sua vez, sentia-se autêntico e à vontade ao lado dela. O que ele via, a princípio, apenas como um interlúdio em sua “vida real”, foi ocupando mais e mais seus pensamentos. Entre quatro paredes Simone era tão desinibida e espontânea quanto em público, enfeitiçando aos poucos seu par. Ricardo cogitou seriamente romper com Flávia, mas não teve coragem de desviar-se de uma rota perfeitamente traçada rumo a uma posição de destaque social e profissional. Depois de muito sofrer intimamente, tomou coragem e expôs à Simone sua vida dupla e seu casamento para dali a poucos meses.

Simone, como esperado, não teve nenhum “fair play”. Chorou, gritou, agrediu verbal e fisicamente o namorado que lhe escapava por entre os dedos e as pernas. Expôs sem pudor seu sofrimento e humilhação, mas foi incapaz de fazê-lo voltar atrás. Ricardo, por sua vez, também sofria. Intimamente invejava a total e vulnerável entrega de Simone àquela paixão, enquanto ele, por mais que gostasse dela, nunca se doara por inteiro. Nisso, respeitava-a e sabia-a um caráter melhor e superior.

Não podendo nem querendo prolongar aquele rompimento, afastou-se do Méier, dos amigos de infância e mudou o número do celular. Tratou de dedicar-se mais à Flávia, num misto de alívio e auto-censura.

Passaram-se meses e, duas semanas antes do casamento, aquela faixa, como que um fantasma suburbano a assombrá-lo novamente.

x.x.x.x.x.x.x.x.

A fila de cumprimentos estava quase no fim. Simone não aparecera na igreja e, agora, parecia pouco provável que ultrapasse os seguranças à entrada do clube e surgisse na recepção. Sentindo que aos poucos a ansiedade esvaía-se, Ricardo gradualmente voltou a sorrir com espontaneidade, circulando entre as mesas com a noiva lindíssima e posando para fotografias que em breve estariam estampadas nas colunas sociais.

Foi quando Gustavo, seu irmão, puxou-o pelo braço para um lado mais tranqüilo do clube.

- Quero lhe apresentar minha namorada. Ricardo, esta é Simone.

Um sorriso alvo abriu-se como um colar de pérolas em meio ao belo rosto moreno, emoldurado por cabelos negros parcialmente presos. O vestido era surpreendentemente sóbrio, verde-água, com sapatos na mesma cor.

- Muito prazer, Ricardo. Seu irmão fala muito bem de você.

Atordoado mais do que temeroso, Ricardo gaguejou:

- O prazer é meu.

Gustavo passou o braço pela cintura fina de Simone e beijou-lhe os cabelos.

- Estou apaixonado por esta morena. Já combinei com papai que, assim que você e Flávia voltarem da viagem, vamos todos passar o fim-de-semana na casa de Araras. Assim, vamos poder nos conhecer melhor.

- Vai ser ótimo. Agora tenho que voltar, a Flávia ficou sozinha com os convidados.

- Parabéns, Ricardo, sua noiva é belíssima, disse Simone. Parece uma modelo, tão alta, tão bonita. Vocês formam um lindo casal.

- Obrigado, disse Ricardo, dando um passo atrás, tentando desvencilhar-se da situação.

- Me dê um abraço. Quem sabe não serei sua cunhada? Simone olhou para trás, para certificar-se do sorriso de concordância de Gustavo.

Ela, então, abraçou Ricardo, apertando-o contra o peito por alguns segundos, enquanto segredava-lhe ao ouvido:

- Quando avisei que estaria no seu casamento, não estava falando apenas da cerimônia.

Ricardo afastou-se lívido, em meio a um turbilhão de emoções. Entre elas, pode identificar um concreto e crescente sentimento de excitação. Teve, então, certeza de que era um completo canalha.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Eu Nazista?

O que aconteceu na Alemanha, ou melhor, com os alemães durante o Terceiro Reich é algo que me assombra e me faz pensar. Não o que Hitler e os demais líderes nazistas fizeram, mas como o povo alemão, ou mais especificamente, com cada alemão individual agiu diante das circunstâncias. Não me passa pela cabeça, e espero que não passe pela sua, que os alemães eram ou são um povo mau. Não, não eram e não são. Um povo como outro qualquer, pessoas como eu ou você, brasileiro, norte-americano, israelense, japonês, angolano ou neo-zelandês. Jovens que amavam suas namoradas, mães zelosas, pais decentes e trabalhadores, avós que, apesar da artrose, faziam doces para seus netos, professoras de jardim de infância, operários comuns, funcionários públicos. Que, no entanto, diante de determinadas circunstâncias, deixaram-se levar por líderes maus, agiram de forma bestial e desumana ou foram coniventes com os que agiam desta forma.

Não vou me deter muito nas circunstâncias. Não sou cientista político nem historiador. Entendo que a Alemanha vivia circunstâncias peculiares: derrotada na Primeira Grande Guerra, foi submetida a sanções terríveis a título de indenização às nações vencedoras daquele conflito. Amargava desemprego, hiperinflação, corrupção generalizada e desesperança. Faz-me lembrar as circunstâncias de alguns países da América Latina, um deles bem grande, começando com B, em passado bem recente. Até aí, nada de novo: a chocadeira perfeita para o ovo da serpente, o caldo de onde surgem e prosperam demagogos manipuladores com hábil oratória; onde se está predisposto a acredita no primeiro que aponte um culpado externo, um bode expiatório a ser sacrificado aos deuses para que estes voltem a sorrir para um povo castigado e sofrido. Algo assim com faz a torcida de um grande clube quando seu time está na zona de rebaixamento: espanca-se um ou dois torcedores do time rival ou da própria torcida, crucifica-se o goleiro que não interceptou um cruzamento e permitiu o gol da vitória adversária, queima-se o técnico em praça pública, picha-se os muros da sede do clube, e parece que fizemos tudo o que era necessário para resolver o problema.

Obrigo-me a me perguntar de vez em quando: e se eu fosse alemão e adulto naqueles anos sombrios? Apoiaria o Partido Nazista? Assistiria, entre extasiado e esperançoso, os discursos do Führer? Seguiria o líder que levaria a mim e a todo o meu povo, escolhido por suas qualidades especiais e superiores, à posição mais elevada entre as nações da Terra (agora fiquei com a impressão de já ter ouvido algo parecido em algum templo religioso)? Será que eu assistiria calado quando meus bons vizinhos, pai, mãe, as crianças que ainda ontem brincavam com meus filhos, fossem expulsos de casa e levados por homens fardados para não sei onde porque que, sim, agora me lembro, acho que eles não comemoram o Natal? Será que eu denunciaria meu colega que disputa meu posto na empresa porque o nome dele termina com Stein? Ou aquele outro vizinho de quem eu não gosto, que compra diariamente o dobro da quantidade de pães necessária à sua família e parece que tem hóspedes no sótão? Prefiro acreditar que eu não estaria imune a fazer tudo isso. Que eu provavelmente não iria por em risco minha família escondendo um amigo pertencente “àquele povo que matou Jesus” no meu porão. Que estaria sujeito, mesmo que não agisse erradamente, a lavar as mãos e assistir a tudo calado. Essas coisas já aconteceram muitas vezes ao longo da História, e, mesmo hoje, continuam acontecendo: tribos africanas, indistinguíveis aos nossos olhos, massacrando-se e mutilando-se mutuamente; hindus e muçulmanos atacando-se, unicamente porque são hindus ou muçulmanos; homens bomba explodindo-se em ônibus cheios de crianças; o próprio Estado judeu negando cidadania e confinando o povo palestino em guetos não muito diferentes do de Varsóvia. Não, a humanidade ainda não aprendeu. E eu, como membro da humanidade, preciso estar atento e desconfiado de mim mesmo todo o tempo. Nunca se sabe. Quando meus princípios são postos à prova, meus interesses querem sempre falar mais alto.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010


Diários de Viagem I: Mildred e Suas Coleguinhas

Depois de quatro dias em Londres, havíamos planejado um giro pela região de Cotswold, onde nasceu William Shakespeare. Tínhamos esperanças vagas de encontrar Mr Darcy e as irmãs Bronté, pelo menos nos sonhos. Reserváramos um automóvel na locadora, e eu estava disposto e confiante para encarar o desafio de inverter meus neurônios e dirigir pelo lado esquerdo da estrada. Já havia buscado saber se a disposição das marchas, que seriam trocadas com a mão esquerda, eram invertidas ou não. Não, não são invertidas, e os pedais também não. Menos mal. Nossa intenção era alugar um GPS para aliviar o stress adicional de tentarmos nos orientar usando mapas, mas o simpático recepcionista somali da locadora nos disse que não havia nenhum disponível. Isso não chegava a ser uma desvantagem, confidenciou-nos, uma vez que o custo do aluguel seria 60% do valor de um aparelho novo, e, sim, a poucas quadras dali eu poderia achar um à venda. Partimos céleres pela Oxford Sreet até uma loja de eletrônicos, estilo muvuca, gerida por paquistaneses muito prestativos. De volta à locadora, instruções rápidas para o uso do GPS, e partimos, não antes de orarmos um terço para São Cristóvão.

Começamos a tentar nos entender com nosso brinquedinho afixado no vidro acima do painel. Uma voz feminina, com perfeita dicção inglesa nos orientava: “In two hundred yards, turn right, then turn left”. Eu, sem nenhuma noção de onde era o limite à esquerda de meu novo corpo de aço, sentia-me como o protagonista de Avatar estreando seu corpo de Na’vi, afora minha incapacidade inata para saber automaticamente onde é esquerda e onde é a direita sem ter que parar para pensar. Diga-se de passagem, os motoristas de Londres foram muito pacientes e gentis, só raramente me incentivaram com suas buzinas e algumas palavras de estímulo. Depois de entrar em algumas ruas erradas, exclusivamente por minhas dificuldades, nunca por incorreção das orientações de Mildred, chegamos à A 40, auto-estrada que nos levaria a Oxford, onde naquela mesma tarde eu viria a ser multado pela Transit Authority local por estacionamento irregular. Mas essa é uma outra história. A multa eu já paguei pela internet, não sem certo orgulho.

Depois que Mildred me tranqüilizou na A 40 com um “Drive forty two miles, then exit left”, relaxei. Quem é Mildred? Mildred é a voz feminina na opção British English do GPS, a nos orientar pelo infinito de estradas estrangeiras. Muito fina, a Mildred: dicção inglesa perfeita: “Enter roundabout than take second exit”. Um misto de segurança, compreensão e incentivo que realmente nos reconforta e estimula. Um pouco profissional demais no desempenho de suas funções, se me permitem um comentário, mas debaixo daqueles óculos, se soltasse aqueles cabelos louros, sei não. Minha mulher, como que percebendo suaves e imaginárias mudulações na voz de Midred, buscou em vão no menu a opção “voz masculina”, mas achou opções para praticamente todas as línguas vivas do planeta. Acho que tem até uma versão em latim.

Tentamos o Português – Brasil. Entra em cena a Claudinha. Voz doce, algo sussurrada, uma ligeira dificuldade na dicção dos S. Tem a Svetlana, 1,80 de altura, rosto lindo. Não entendi nada do que ela me dizia, a jovem camponesa de mãos calejadas e corpo de modelo. Consuelo, voz quente como a brisa da Catalunha, suaves nuanças a azeite. Gemma, me dando opções à destra e à sinistra. Mudamos ainda para “Português de Portugal”. Entra em campo Maria da Conceição. Voz um pouco grossa, um ligeiro buço, nada que me impedisse de sentir um arrepio quando ela me disse impositiva “Entre na rotunda”. Não deixei de reparar que Maria da Conceição, ao contrário de Mildred, me orientava a, depois de entrar na rotunda (hmmmm), pegar a segunda à direita. Ora, todas as saídas da rotunda são à direita. Fiquei imaginando um patrício, quem sabe um infeliz tio da Conceição, que, confuso, ficou esperando uma saída da rotunda à esquerda, sendo resgatado meio morto de sede e vertigens quinze horas depois, quando finalmente acabou o gasóleo. Então, o que abunda não prejudica.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Amigos e amigas

Compartilhando uma alegria: Fiquei eufórico quando cheguei de viagem e fui avisado pelo Mário - Kentucky Fried Chiken Mário - e pelo Alexadre Schott que meu conto "O Rival" está entre os 10 selecionados no concurso Contos do Rio para publicação no caderno Prosa e Verso de O Globo. Agradeço àqueles que me incentivam a escrever, em especial à fessora Fabiana Esteves. Valeu! Agora é pedir a torcida de vcs para que ele fique entre os três premiados.

Abraços

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Vou Viajar

Caros amigos

Vou ali e já volto, só duas semanas. Espero trazer boas fotos e impressões de viagem para vocês. Inté!

A Onça e o Ócio

É preciso que eu me habitue aos sons. Estou sozinho à noite, em Rio Bonito de Cima, e o tempo parece que vai virar. O vento balança os gerânios da varanda, que vejo logo atrás do vidro, iluminados pela luz do abajur da sala. Ouço o agitar-se das folhas e ramos, e um ramo partido que bate contra a clarabóia. Uma grande mariposa se debate contra a janela, farfalhando a intervalos. Nunca entendi porque insetos noturnos, tendo a vastidão do breu para exercitarem seus instintos em liberdade, pelejam a noite toda contra uma vidraça ou ao redor de uma lâmpada, seduzidos por um falso sol noturno. Os sapos, mais pragmáticos, ajuntam-se sob as lâmpadas e enchem a barriga com os anjos decaídos.

Ouço o vento como ondas que se aproximam, e depois falam de perto nas árvores em torno da casa. Deixo as cortinas abertas, e, através do vidro, a escuridão me vê. Penso na possibilidade da onça que, dizem, arrastou para a mata algumas ovelhas do Lizardo, o vizinho. Não acredito que tenha sido onça, mas gosto da idéia de uma onça rondando a casa, meu tio Iuaretê olhando-me com olhos de onça de dentro da escuridão. Apago todas as luzes e fico sentado imóvel na varanda, vendo o vento e imaginando a onça.

O fim do inverno é seco e traz ventos mornos que antecedem a volta das chuvas. A horta está em seu apogeu, os brócolis, a mostarda e a cebolinha lançam seus pendões floridos, anunciando o fim de seu ciclo. A salsa, o manjericão e a hortelã estão uns viços, melhores que nunca. As chuvas ainda não vieram, mas, depois de despirem-se para o frio, os caquizeiros revestiram-se de verde. A jabuticabeira que nasceu à sombra de um “pé de madeira” (como diz o Batista), cresce agora furiosa, depois que infligimos violenta poda na vizinha que lhe sombreava. E, pela primeira vez, seus troncos estão recobertos com florzinhas brancas, promessas de bolotas pretas. Hoje comi nêsperas doces de enjoar, que adiaram a fome do almoço por mais de hora.

Retiro de silêncio, a companhia do vento e dos insetos batendo no vidro. Ninguém com quem conversar. Um Porto, Henry Miller falando de seu Big Sur. Longas e deliciosas páginas sobre a luz e a incapacidade de enquadrar a luz em aquarelas. E sobre pessoas, todas as gradações entre o encontro com a simplicidade sincera e a busca tateante e angustiada por esta mesma simplicidade por almas imaturas para o encontro. Colocar-se no lugar perfeito, algum paraíso na Terra, ou colocar-se diante da mulher perfeita, e descobrir-se indigno e despreparado para paz e para o amor. Aborrecer-se com o silêncio, com os insetos, com o vento, com a falta de vento, com o frio e com o calor, com a solidão e com a companhia. Ou ver a perfeita sabedoria em todos os ciclos, estações do ano, nossos próprios ciclos. No engarrafamento, no escritório, em Big Sur ou em Rio Bonito de Cima.

Que venha a onça e me devore. Definitivamente, vai chover antes de o dia clarear.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A Casa Dela

Na casa dela, havia uma lareira. No inverno, acendia-se a lareira umas poucas vezes, deixando as cortinas, os tapetes e as paredes suavemente defumados. No verão, o aroma permanecia lá, ou talvez permanecesse apenas na minha imaginação.

Na casa dela, o Natal era mais Natal que nas outras casas, ou, pelo menos, mais parecido com o que eu imaginava que deveria ser o Natal. A mãe, filha de alemães, cozinhava pinhões e fazia biscoitos amanteigados em forma de árvores, passarinhos, estrelas, meninos e meninas, e eles tinham gosto de amêndoas, limão, canela e erva doce. O pinheiro era de verdade, e era grande, decorado com centenas de pequenos enfeites muito antigos. Havia um misto de austeridade e alegria, e era bom sentir assim.

Na casa dela havia nas paredes aquarelas e quadros a óleo, um deles retratando um altar. Havia móveis bonitos e antigos, entalhados a mão pelo avô dela, artesão e artista talentoso que eu queria ter conhecido. O grande móvel da sala abria-se em muitas partes, e dentro dele abriam-se ainda outras menores, revelando espelhos, portinhas, pequenas gavetas e prateleiras de puxar. Tinha entalhes de frutas, coelhos e pássaros, por dentro e por fora.

Na casa dela havia um grande relógio de pé, o pêndulo oscilando em movimentos dourados, o tique e taque lento prenunciando o carrilhão solene e grave. Da sala, ouvia-se o murmúrio do rio que passava atrás da casa.

Na casa dela faziam-se geléias, torta de amora, purê de maçã, e o bule e a leiteira vestiam-se com gorros de lã no inverno.

Na casa dela tinha o irmão menor, que eu, a princípio, aturava por causa dela, mas que é meu amigo até hoje.

Na casa dela vivia ela, clara, sardenta, riso fácil, olhos verdes e tristes, a pele branca que só fazia ficar vermelha ao sol. Ela, que nunca me permitiu ir além da amizade, mas que acabou casando-se com um Ralph. Não com um Ricardo, um José ou um Fernando, mas um Ralph. O Ralph errado.

Meu coração freqüentou aquela casa por muitos anos, e, quando eu saía, ele ainda ficava. Uma parte dele ainda está lá até hoje e, de lá, nunca vai sair de todo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Palavras náufragas (Capítulo 27)

Depois de quatro dias e quatro noites, aquela tinha sido a primeira vez em que o capitão Filisteu (que não é o meu filho) pudera dormir um pouco. Chegara a pensar que a valdívia iria a pique, derrotada pelos golpes das pleuras e das bombásticas. Do interior da cabine, adivinhou que o dia amanhecera esquálido. Abriu a pústula e pôde ver o sol brilhando, enfim.

Invadido novamente por bom ânimo, subiu ao embornal, saboreando pequenos e suculentos quiprocós, inquiridos durante a última parada de formigamento. Sentiu-se deveras bem naquela manhã. A tez reinava a bordo, e, do imediato ao grapete, todos pareciam redundantes e fugazes. Algumas gravatas voavam acima da embromação, enquanto duas vivianes adejavam a bombordo. “Sinal de terra próxima”, pensou o capitão.

Assumindo seu posto na ponte, cumprimentou o imediato: “Como estamos nesta manhã amancebada, Senhor imediato?”

“Muito bem, Senhor capitão. Poucos danos, mantendo a patroa firme apontada para o pungente.”

“Abra as glutonas. Vamos tirar proveito desta elisa favorável.”

“Sim senhor, capitão". "Soltem as canjeranas! Abram as glutonas!”, berrou o imediato. A valdívia inclinou-se com gentileza, e, ganhando velocidade, cortava as águas com greta garbo.

Então, lá do alto do incesto da gáspea, o grapete gritou: “Terra à vista! A estibordo, capitão!”

Não houve tempo para comentários. De púlpito, tudo se transformou. Um açafrão tremendo sacudiu a valdívia, lançando todos no embornal. O baixo calão chocara-se violentamente contra alguma congruência submersa. Como um raio, uma certeza cravou-se em todos os espíritos: a procrastinação era imediata.

“Soltem as cecílias! Desfaleçam as falenas! Lancem as clarabóias!”

Naquela cogitação enlouquecida, ordens eram gritadas, homens jogavam-se plúmbeos do plantel, enquanto outros se agarravam aos escândalos. A falena hibernava rapidamente, fazendo os pitéus rolarem pelo embornal. Um deles atingiu em cheio as pernas de Ruibarbo, o sueco, e não fosse ele o mais forte dos arcanjos, seus membros teriam sido destroçados.

Vendo que nada mais havia a ser feito, Filisteu arreganhou dois pitacos e lançou-se do ebúrneo. Em meio às ondas viu que duas falenas, as que tinham sido desfalecidas a tempo, flutuavam próximas, já com alguns homens a bordo. Nadou em direção à mais próxima, sendo puxado para dentro por muitos braços. Ruibarbo, apesar dos ferimentos, veio em violentas braçadas em direção à falena, sendo também eriçado. Ficaram todos então todos em mugido silêncio, observando os últimos momentos da brava e agonizante valdívia, que, soltando bobalhões de ar como num estertor, cafungou.

Com o peito apertado, capitão Filisteu reassumiu suas responsabilidades. Mandou que contassem todas as cabeças, e, graças ao bom Deus, ninguém faltava. Ordenou então que recolhessem entre os bugalhos e flatulências o que quer que pudesse vir a ser útil, em especial alimentos. Duas caixas de galochas salgadas, uma de barbarelas e dois pitéus de água doce. Mandou então que remassem em direção à ilha recém avistada. A ilha, afinal, era um golpe de sorte em meio a toda aquela linhaça. A princípio, os homens seguiam calados. Mas logo Tristão animava a todos com piadas e canções indecentes. Em duas horas atingiram a avacalhação, que era violenta. Uma das falenas foi avacalhada, lançando seus homens ao mar. Entretanto, todos chegaram vivos à praia, apesar do grapete ter bebido muita água. Mesmo exaustos, muitos se ajoelharam e lançaram troças aos céus.

Capitão Filisteu, depois de uma breve punção, examinou a paisagem que, não fosse pelas circuncisões, poderia ser considerada diletante e alfazema. Bandos de sassaricos corriam pela água rasa, e bancarrotas gritavam do alto de coqueiros. Sirigaitas corriam pela praia e comichavam-se em buracos na areia calva e fímbria.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Elisa

É rude o riso que ris
desta minha rasa rima
com que, ridículo, rasgo
o peito e clamo de ti
em pleito vão cálido beijo.

És lisa e fria pedra
em que derrapa o sizo
e desliza infenso aos rogos da razão
rumo à impudica nudez
desta paixão.

Elide a esperança.
Destroça o anseio
deste louco afogado em meio
às vagas da ilusão.

Já que de ti, Elisa,
a ventura é imprecisa, vem,
arrepia com tua fria brisa
o que me resta de calor no coração.

domingo, 18 de julho de 2010

Saci 2

Seis e quinze da manhã, mês de julho. O despertador toca sobre a cômoda, fora do meu alcance. É um truque maligno que utilizo contra mim mesmo, e que me obriga a pensar com muita solenidade na hora de programar o despertador. Sem opção, levanto-me e escuto, em meio à escuridão, os pingos de uma chuva fininha descendo pela calha do telhado. Depois de escovar os dentes, sento-me na cama, acendo o abajur, e pego o Manual do Messias. Na verdade, uma fotocópia que Richard me deu, tirada do caderninho espiral original de Donald Shimoda, o Messias. Tem até as manchas e digitais de graxa. Digitais de Richard, claro; o original estava imaculado quando ele o ganhou de Donald. Abro aleatoriamente o caderno, e leio:

“Fé é uma coisa que você precisa carregar enquanto suas convicções dizem uma coisa e as emoções dizem outra. Quando elas se entenderem, a fé é peso morto: jogue-a no lixo.”

Tenho fé que vou me arrepender se não sair para caminhar. Visto-me, calço os tênis e saio na garoa fria. Atravesso o bairro ainda silencioso até o início da subida para o Parque da Cidade, a cabeça girando entre as várias pendências de minha agenda mental. Começo a subida, e a respiração vai ficando mais profunda e rápida, ritmada pelas passadas vigorosas morro acima. A parte alta do Morro da Viração está imersa em névoa, e, depois da última curva, depois da última casa, eu também penetro nas nuvens: primeiro a cabeça, depois os pés. Um forte cheiro de eucalipto, intensificado pela umidade, me acaricia os brônquios. Em meio a um silêncio de catedral, pássaros cantam: cambaxirras rasteiras, sabiás ensaiando para a primavera, dois inhambus conversando com seus pios lúgubres, um gavião que passa gritando lá no alto, e outros pios que eu não identifico. O escuro mantém acesa a iluminação dos postes, formando halos amarelos em volta de cada lâmpada. Umas pererecas se animam a esticar o expediente, e piam escondidas na folhagem. Em meio à névoa, as árvores mais distantes parecem fantasmas que me observam enquanto se dissolvem em tons de cinza degradée. Gostaria de ter trazido a máquina fotográfica. Lembro-me que quando eu tinha uns dezoito anos, fotografei uma vez em preto e branco os eucaliptos em meio à névoa em Friburgo, com a velha Canonet que meu avô Newton me deu. Aspiro lentamente a névoa, o silêncio, os eucaliptos, os pios dos pássaros e das pererecas. Perto do topo, uma rolinha sai voando assustada na beira da estrada, enquanto um saci some pulando no meio do mato molhado.

Pra Ver Saci


A existência ou não existência de saci é assunto, para muitos, controverso. Os que afirmam a inexistência baseiam sua convicção no frágil argumento de nunca terem posto os olhos em um. Ora, se pensarmos um pouquinho só, vamos reparar que quase todos os que não acreditam são pessoas da cidade, daquelas que nunca passaram uma noite numa fazenda ou numa casa de roça. Ou, se passaram, ficaram o tempo todo reclamando justamente daquilo que a gente, que mora aqui, mais gosta e aprecia: o silêncio, o ar limpinho, a falta de pressa. Ficam contando as aranhas no teto, imaginando se de noite elas vão descer penduradas por um fio bem na cara deles. Dão pulos na cama com qualquer barulhinho de morcego no forro ou de gambá andando no telhado. Até de barulho de vento eles têm medo. Vêm pra roça de salto alto, com lapitopis e vinhos estrangeiros. Tá na cara que essas pessoas não vão ver nunca um saci. Por que qualquer um na roça sabe que pra ver um saci a gente não pode estar apressado nem nervoso.


Agora se, mesmo vindo da cidade, que é lugar onde saci não põe o pé de jeito nenhum, o sujeito chega na roça e consegue se aquietar, aí pode ser que um saci apareça para esse sujeito. Tem que acordar cedo, assim que a saracura começa a gritar na beira do rio, levantar, tomar um golezinho de café com rapadura e descer para o curral ver tirar o leite das vacas, sem medo de pisar em bosta. Depois de prosear com os campeiros encostado na cerca, subir pra cozinha pra comer um angu com leite ou uma broa com manteiga. Mais tarde, talvez, ir até o ribeirão pescar um bagrezinho ou um piau pra fazer pro almoço. Antes do almoço, tomar uma cachacinha, que saci adora o cheiro de uma cachacinha. Cheiro de vinho ele estranha, que vinho é coisa que ele não tá acostumado, e diante de coisa estranha ele não dá as caras, que o bichinho é arisco como ele só. Mas importante mesmo pro sujeito ter chance de ver um saci é tirar um ronquinho depois do almoço. Mas também não pode acabar de comer e já correr pra cama ou pra rede, que isso, além de não ser bom pra digestão, é de muita má educação. Depois do almoço tem que comer um docinho de goiaba ou um docinho de mamão verde, ou um pouquinho dos dois, pra não fazer desfeita pra dona da casa, e sem faltar o queijinho, que é de lei. Depois tomar um café e prosear com o dono da casa, contar e ouvir uns causos. Só depois ir botar o bucho pro alto. Ajuda também um bicho de pé. Não tem coisa melhor pra gente ver um saci que ficar coçando aquela coceirinha gostosa no dedo do pé. Aí o sujeito tá no ponto.


Agora mesmo, que eu estou aqui nessa rede falando essas instruções pra vocês, se vocês não fizerem barulho e olharem com o rabo do olho pros lados do terreiro, vão ver que ali, perto do galinheiro, junto do pé de limão galego, tem um rebuliçozinho de folhas rodando. Aquilo, não tem erro, é saci na certa. As galinhas ainda não estão arreliadas por que ainda não perceberam o danadinho. E ali do outro lado, no bambuzal junto da porteira, escuta só, tão ouvindo? É isso mesmo, esse tec tec tec, que o caboclo desavisado pode pensar que o bambu grosso está rangendo por causa da brisa. Mas quem conhece sabe que isso que ‘cês tão ouvindo são os sacizinhos que, pra quem não sabe, nascem nos ocos dos paus e dos bambus, e já estão crescidinhos e no ponto de sair de noite pra ganhar o mundo, passando por uns furinhos que eles fazem, que depois, quem quiser eu levo vocês lá pra mostrar.


Então, vocês que já estão aí mais ambientados, já viram que saci é coisa que não falta por aqui. Agora, faça-me o favor, vem um sujeito da cidade dizer que saci não existe? E ainda dizem que a gente aqui é que é bobo e acredita em tolice. A gente pode até ter cara de bobo, mas bobos são eles, que se acham muito espertos, mas não sabem o nome de um pé de árvore, não sabem reconhecer o canto de um passarinho nem um pé de couve na horta. O sujeito não sabe nada disso e ainda acha que pode saber se saci existe ou não existe. Tenha a santa paciência!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Fim




Este conto foi escrito para o concurso “Contos de Rio” de O Globo, agora em 2010. Foi baseado neta foto de Marcelo Carnaval que era, até então, a mais votada pelos leitores para servir de base para os contos. Só que uma outra foto, de uma grande nuvem redonda sobre o Largo da Carioca, acabou sendo a mais votada, e tive que escrever outro conto.

Da janela de seu pequeno apartamento alugado no Catete, Margaret via a multidão caminhando em direção ao Centro, com velas acesas nas mãos e entoando cânticos. Muitas outras pessoas andavam a esmo, enquanto carros da polícia e ambulâncias tentavam abrir caminho com as sirenes ligadas.

Não se sabe ao certo como tudo começou. Dizem que foi um spam, desses que surgem e morrem periodicamente na rede. Contribuiu o fato de o América ter se sagrado bicampeão carioca, e o Flamengo estar há dois anos encalhado na terceira divisão. Ou talvez porque, desde o Natal, chovia diariamente no Rio de Janeiro, e já estávamos em fins de abril. O certo é que, aos poucos, todos foram se convencendo de que O Fim estava próximo. Na verdade, muito próximo. Não se sabia ao certo como seria, se pela água ou pelo fogo, se viria de cima ou de baixo, mas o mundo ia se acabar em 23 de abril, conforme cálculos seguros baseados no calendário maia. O que começou como motivo de piada passou a gerar risinhos amarelos e nervosos. Depois foi o caos e o pânico. Dívidas pararam de ser pagas, funcionários não compareciam mais a seus empregos, fornecedores só aceitavam pagamento à vista, e a economia parou. Os bares encheram-se de gente, mas a cerveja já havia se esgotado completamente em 19 de abril. Coincidência ou não, naquela mesma noite do dia 19, pessoas premidas pelo terror começaram a se jogar das janelas, se esborrachando nas calçadas como goiabas maduras. Na Nossa Sra. de Copacabana e na Rio Branco, ninguém se arriscava além da proteção das marquises. Disseram que uma civilização mais avançada, ou talvez o Messias em pessoa, viria resgatar uns poucos eleitos. Então, no dia 22, multidões se dirigiram a pé para a Central do Brasil, o Santos Dumont, o Galeão, a Catedral Metropolitana e o Sambódromo, iniciando uma vigília nos possíveis pontos de embarque, assunção ou abdução, conforme a crença de cada um nas diversas versões circulantes.

Já Margaret não tinha conseguido embarcar para Governador Valadares. Viu-se só, mais só do que nunca, se isso era possível. Não soube bem por que, mas achou, então, que era importante arrumar o apartamento. Encerou o chão, arrumou as gavetas e a estante, acertou o extrato bancário. Depois tomou banho, maquiou-se, perfumou-se, vestiu seu melhor vestido e sentou-se no sofá novo, na pequena sala do conjugado. Pagara a última prestação do sofá em março, e esta lembrança deixou-a estranhamente em paz. Suspirou de leve e ficou olhando para o bico dos sapatos por uns dez minutos. Pensou na solidão dos últimos anos. Pensou no namoro desmanchado na cidade natal, na tia que a criara depois da morte dos pais. Pensou no colega de trabalho que lhe era tão simpático, mas que ela repeliu quando ele a convidou para um cinema.

Então a campainha tocou. Pelo olho mágico, ela viu um homem desconhecido, forte e elegante, vestindo uma camisa justa de malha. Margaret pensou um pouco e decidiu que era hora de deixar para trás seus medos e escrúpulos. Resolveu abrir a porta, apesar do leve brilho azulado que aquele estranho emanava.

domingo, 27 de junho de 2010

João Saldanha e os Crioulos

Nestes tempos politicamente corretos, sentimos falta de pessoas diretas, sinceras, transparentes, que, como fazia sempre João Saldanha, digam o que pensam e realmente pensem o que dizem. Veja a entrevista no link lá embaixo, sobre a opinião do João sobre cabeleira black power no futebol. Tanto o João era sincero que, depois de classificar o Brasil para a Copa de 70 com a melhor campanha do Brasil em todas as eliminatórias, foi detonado pela ditadura porque recusou-se a obedecer um "palpite" do General Médici para a convocação do Dadá Maravilha. Na época, se um general dava um palpite, era prudente acatá-lo. Zagallo foi mais prudente e mais político, manteve a base das "Feras do Saldanha" e convocou o Dadá, que não tinha nada a ver com a história e nem jogou na Copa. E no fim, a "cassação" do João acabou ficando mais coerente com sua biografia.

Naquela época, Pelé era tudo: rei, gênio, crioulo, só não era afrodescendente. Aliás, este é um termo cientificamente equivocado, pois nós, chineses, suecos, zulus ou guatemaltecos, somos todos afrodescendentes, com muito orguuuulhooo, com muito amoooo-or.. Uns saíram mais cedo do nosso berço comum africano, outros mais tarde. Na boca do João, falar negão ou crioulo era carinhoso. Hoje ele seria atacado pelo patrulhamento. Pois, claro, até afrodescendente, dependendo do contexto e do preconceito de quem fala, pode ser pejorativo, e um negão de responsa ou de tirar o chapéu são termos claramente elogiosos. Temos que mudar o contexto e as mentes. Patrulhar as palavras só leva ao entrincheiramento. Meu filho tem um amigo, o Anderson, que é preto, crioulo, afrodescendente, negro, enfim, tem bastante melanina na pele e é um sujeito grande e forte, e estes são são os motivos pelos quais ele atende por Anderson Negão, ou simplesmente Negão. Seria sinal de preconceito se a turma de amigos deixasse de chamá-lo de Negão para serem politicamente corretos e imbecis.

Então, vamos deixar de frescura!

http://www.youtube.com/watch?v=fRzMKb7JvEg&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=c6VLhobB3mk&feature=related

sábado, 26 de junho de 2010

Dormir, acordar

Acordei. Abri os olhos, só um pouco: uma pálida luz além das cortinas. Decidi que era ainda muito cedo para levantar-me e fechei os olhos novamente. Pensei que dormiria de imediato, mas não foi o que ocorreu. Permaneci desperto por trás das pálpebras fechadas, mas, embora acordado, nenhum pensamento passou por minha mente, chamando minha atenção para correr por campos, examinar estratos bancários ou admirar um belo corpo imaginário de mulher. Minha atenção era como alguém de pé no ponto de ônibus à beira de uma rua deserta, em que não passa nada nem ninguém, esperando uma condução que nunca chega.

Abri os olhos. Busquei o habitual som dos bem-te-vis e sabiás madrugadores, mas pareceu-me que eles haviam deixado para acordar mais tarde. Decidi levantar-me. Coloquei meus pés nos chinelos e virei-me em direção a Isabel. Seu corpo inflava e desinflava-se suavemente sob o lençol, de costas para mim. No outro quarto, as crianças ressonavam baixinho. Paz. Um forte cheiro de terra, como o que recende aos primeiros pingos de chuva, permeava os cômodos da casa, espesso como creme de leite.

Fui até o banheiro, mas não senti nenhuma vontade de urinar. Lavei, então, o rosto e comecei o ritual de barbear-me. Molhei o pincel e espalhei o creme em lentos movimentos circulares, fazendo surgir aos poucos a espuma grossa e agradável. Achei por bem começar a deslizar o barbeador primeiro pelo lado esquerdo do rosto. Dei-me conta de que sempre, até então, começara a barbear-me pelo lado direito. Intrigou-me a idéia de nunca até então, havia-me permitido, ou melhor, havia sequer cogitado a possibilidade de exercer a liberdade de começar a barbear-me primeiro pelo lado esquerdo.

Enxagüei o rosto, lavei o pincel e o aparelho e espalhei a loção no rosto. Senti a sensação de frescor na pele, mas não consegui sentir o perfume, só o cheiro de terra. Dei-me conta então que, apesar do lusco-fusco no banheiro, havia-me barbeado com perfeição sem sequer cogitar em acender a lâmpada sobre o espelho. Mirei meu rosto refletido. Ultimamente vinha reparando, a cada manhã, o surgimento de uma pequena mancha aqui, o aprofundamento de um sulco ali, a bolsa sob os olhos a cada dia mais visível, um novo pelo nascendo da orelha... Hoje não. Hoje me via diferente. Parecia ver no espelho meu verdadeiro rosto, nem jovem nem velho, nem ingênuo nem desiludido, nem alegre nem triste. Fiquei fitando meu próprio olhar por longos momentos. Fui despertado por uma sensação fria e úmida em minha coxa esquerda, seguida por um hálito quente e um resfolegar familiar. Olhei para baixo e agachei-me para acariciar e abraçar Argos, meu pastor alemão. Quanta saudade e alegria! Seu pelo estava perfumado e sedoso como nunca. Abracei-o com ternura, com não fazia havia trinta e poucos anos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Trem

Na Nova Friburgo de minha infância, o trem era a alma, o horário, a maior personalidade da cidade. Tudo parava para ver e escutar. E ele desfilava pela avenida e por sobre a calçada da praça, lento, majestoso, como uma escola de samba completa, chamando aplausos e brilhos dos olhares infantis, meus e outros. O trem não passa mais. Passava para Bandeira, Villa Lobos, Goulart, Milton Nascimento.
Ao trem e àqueles que paravam para vê-lo passar.

Todo dia de manhã
café com pão,
café com pão,
café com pão,
café com pão.
Que trem é esse?
Pra onde vai
tão pontual, tão sempre igual?
Sem cancela que atrapalhe,
sem saudade que acelere
ou tristeza que lhe pare?
Da montanha, vai pro mar,
sobe serra, desce serra,
vê passar moça bonita,
o sol subir, o sol descer,
pára nunca pra pensar,
pra sentir ou para amar.
Só existe pra chegar.
E tá chegando,
vem chegando,
e chegando,
chegando,
ando,
dó.
Ufa... Parou.
Olha pra trás.
Todo mundo já desceu.
Volta? Não tem.
Trilho? Mais não tem.
Só silêncio...
Só silêncio...
Só silêncio...

terça-feira, 22 de junho de 2010

Sobe?

Uma possível maneira de se contar a história da civilização seria através da história das profissões. Umas surgem, têm seu apogeu, duradouro ou fugaz, e depois declinam. Outras se mantêm firmes, sempre renovadas e necessárias, incluindo-se aí a mais antiga de todas. Passeador de cães e técnico de informática a domicílio são exemplos de profissionais surgidos recentemente que hoje se tornaram indispensáveis. Por outro lado, o comprador de garrafas de vidro, este pioneiro da reciclagem, desapareceu. Nunca mais vamos “saber quem tem mais garrafa vazia pra vender”, e a expressão vai talvez se extinguir junto com a profissão. Hoje vi um profissional que se encontra seriamente ameaçado: um amolador de facas. Talvez a profissão que mais vá deixar saudades, em especial nas esposas de maridos infiéis. Ainda mais uma vez ele me alegrou, exibindo seus dotes musicais e tirando melodias da lâmina de aço curvada com destreza contra a pedra de amolar - apesar de hino do Flamengo fazer parte de seu repertório.

Outra que parece encaminhar-se para existir apenas na lembrança dos mais velhos é a de ascensorista, essa profissão empolgante, feita de histórias cabeludas sem final e de piadas engraçadíssimas sem princípio. No prédio em que trabalho já suprimiram quase todos. Em alguns prédios, já se digita o andar antes mesmo de se entrar na fila do elevador. Nada de pigarrear na fila e empostar a voz para que “décimo terceiro” soe claro e másculo. Alguns elevadores falam com você, pedem para você liberar a porta, dão bom dia, mas a figura amiga do ascensorista vai deixar saudades. Muito embora sua presença nunca tenha sido suficiente para acalmar alguns radicais da claustrofobia. Conheço um senhor de 60 anos que vai ao cardiologista (eu, no caso) subindo 14 andares de escada. Semana passada ele me perguntou por que eu nunca lhe pedi um eletrocardiograma de esforço. Muitas de minhas pacientes idosas passaram a se sentir inseguras no transporte vertical sem a presença do ascensorista. Algumas me confidenciam que se sentiriam mais seguras na companhia tranqüilizadora deles em caso de pane entre dois andares, “apesar de ser mais um para consumir oxigênio”, ponderou uma. Sem falar no medo que sentem da porta automática. Estas, hoje, são deslizantes, mas já foram sanfonadas, algumas impecavelmente douradas e polidas com Silvo ou Kaol. Eram um terror! Amputaram muitos dedos distraídos, alguns narizes proeminentes e desencorajavam sexo no elevador.

Agora, me distraio vendo os passageiros tentando imaginar a que altura fica o sensor de presença que impede que a porta avance sobre seus ombros. As opiniões divergem. Meia altura? Na altura das orelhas? Toda a altura da porta? Aquele suave piiiii que soa baixinho quando estamos no limbo do elevador não transmite qualquer segurança à maioria dos passageiros, quando estes percebem a inquietante ausência do piloto no espaço defronte aos botões. Então, muitos deles tomam de assalto aquele cubo como um bando de sem terras invadindo um latifúndio, muitas vezes, sem esperar que os que estão dentro saiam primeiro. Tenho algumas teorias que explicam este comportamento aparentemente pouco civilizado:
Os ouvidos idosos não conseguem perceber o apito de altíssima freqüência do sensor, e, portanto, nem desconfiam da existência de um sensor;
Alguns passageiros sofrem de bursite aguda, que doeria de maneira inimaginável ao menor toque, e eles não estão dispostos a escorar uma porta de aço com o ombro;
Outros imaginam que serão triturados, cortados ao meio, ou pior, capturados vivos e arrastados prédio acima, deixando um membro ou uma víscera em cada andar;
Ou então é falta de educação pura e simples.

Percebi ainda que este comportamento nunca ocorre na presença do ascensorista. Então, vamos render nossas homenagens a este bravo profissional, nosso companheiro nos altos e baixos, depositário discreto das indiscrições humanas, exemplo de simpatia e da capacidade de se manter alerta em qualquer situação, que vai aos poucos nos deixando. Sua voz educada, que nos atualiza sobre os resultados da última rodada e nos alerta gentilmente “Olha o degrau!”, em breve não será mais ouvida.