Aqui compartilho contos, crônicas, poesia, fotos e artes em geral. Escrevo o que penso, e quero saber o que você pensa também. Comentários são benvindos! (comente como ANÔNIMO e assine no fim do comentário). No "follow by E mail" você pode se cadastrar para ser avisado sempre que pintar novidade no blog.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Onde Você Gostaria de Ter Nascido?

Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá,
As aves que aqui gorjeiam
não gorjeiam como lá.
(Gonçalves Dias)




Recentemente uma rádio lançou a pergunta para os ouvintes: Onde você gostaria de ter nascido?

Sei de muitas pessoas que, definitivamente, foram extraviadas pela cegonha e nasceram no lugar errado. Uma amiga, por exemplo, acaba de se mudar de Niterói para a serra gaúcha.

“Mas sua família é do Sul? Tem parentes por lá?”

“Não, não tenho nenhum parente por lá.”

“Então foi proposta de emprego?”

“Também não.”

“Seu marido foi transferido e você vai acompanhá-lo?”

“Nananinanão.”

Nada disso. Ela e o marido pesquisaram muito sobre qual seria o melhor lugar do Brasil para viver e criar os filhos, e concluíram por uma pequena cidade vizinha a Bento Gonçalves. Ela odeia calor e não liga para praia. Gosta de trabalhar duro e de tudo muito bem organizado. É clara, alta, de olhos verdes e, tenho certeza, em pouquíssimo tempo, vai estar falando na segunda pessoa: “Quando é que tu vens nos visitar, tchê?” Um caso cristalino de alguém que sempre foi gaúcha e nasceu no Estado do Rio por engano.

Existem alemães e suecos que vagam perdidos pelo mundo até o dia em que desembarcam na Bahia ou no Rio de Janeiro. Tomam contato com nosso controverso jeitinho e são tomados pela certeza de que essa nossa flexibilidade em relação às regras é a melhor maneira de levar a vida e se relacionar, e não aquela rigidez cartesiana e sem criatividade dos povos nórdicos. Adoram os guardadores de carro, fazem amizade com camelôs e ficam enternecidos com os malabaristas de sinal; deliciam-se em pendurar uma conta, saem dizendo “Aparece lá em casa”, aprendem a chegar atrasados e derretem-se em dar beijinhos e abraços em pessoas a quem acabaram de ser apresentados. Adotam a bermuda e o chinelo como uniforme e procuram logo quem lhes ensine a tocar tamborim ou berimbau.

Há também baianos e cariocas que se irritam com tudo isso. Vivem a vida em um banzo sofrido e inexplicável até o dia em que são despachados a trabalho para Oslo ou Frankfurt e só então descobrem seu paraíso, sua terra natal. Nunca mais saem de lá, maravilhados com os trens que chegam na hora, com os espetáculos que começam pontualmente, com o cumprimento estrito de prazos e compromissos, com a neve e até com a maior reserva no trato interpessoal. Batizam os filhos de Helmut e Ingeborg e nunca mais voltam para os trópicos.

De minha parte, penso que sou brasileiro e niteroiense desde muito antes de abrir os olhos nesse mundo. Como a maioria de meus conterrâneos, percebo e lamento tudo o que nos afasta de termos uma pátria mais mãe gentil e menos madrasta. Mas, sinceramente, não trocaria esse país imperfeito por outra terra qualquer para viver. Não por nacionalismo ou xenofobia. Na verdade, as fronteiras e os idiomas que separam os seres humanos são, a meu ver, uma coisa artificial, criada e mutante, separando os diversos patrícios da grande e única nação humana. Basta dar uma olhada na constante dança das fronteiras na Europa nos últimos cem anos, para não irmos muito longe no tempo.

Tem gente que, com toda razão, se diz feliz em olhar pela janela de sua casa na Alemanha e ver bem ali onde foi aplicado o dinheiro de seus impostos. Aqui, nem sempre é tão simples. Somos uma civilização em construção que avança aos trancos e barrancos. Porém, sinto mais prazer no desafio de entrar no segundo tempo de um jogo difícil para tentar virar um placar adverso do que em fazer número em campo num jogo que já está ganho de goleada.


De qualquer forma, ninguém escolhe onde vai nascer. Mas pode escolher onde vai morrer. E você?

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Dança


A Dança da Fada

(fada, dancing fairy, watercolor, acquarella, aquarela)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Da série VIRTUDES: Lealdade.

O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente. (Millor Fernandes)
Um desavisado pode até achar bonita e nobre a forma como o PT não desampara os seus membros que foram pegos no exercício do desvio do dinheiro público para o financiamento de campanhas presidenciais e regionais e a compra de votos no Congresso para a aprovação sem sustos das proposições do Partido dos Trabalhadores. Era de se imaginar que qualquer outro partido, na tentativa de autopreservar-se e separar a imagem partidária da de seus membros criminosos, expurgasse as maçãs podres para preservar o cesto.  Diriam, como já disseram outros partidos, mesmo que só para inglês ver: "Esclareça-se tudo e punam-se os eventuais culpados." Por que o PT não age assim? Porque a militância e os líderes remanescentes do Partido dos Trabalhadores se desdobram em tentar metamorfosear criminosos julgados e punidos em mártires alados abatidos em seu voo heroico na direção da redenção do povo brasileiro? Por que, porque?

Simples. O desvio de recursos públicos, a cobrança de pedágio das empresas prestadoras de serviços às prefeituras petistas, a compra de votos de deputados "menos nobres" de partidos idem não eram atos aloprados de filiados desonestos. Eram, isso sim, provas de lealdade, de cumprimento fiel às determinações da cúpula petista, o Sr José Dirceu como grande mentor. Os meios ilícitos seriam pequenas concessões necessárias para o Bem Maior: a hegemonia do Partido dos Trabalhadores, entidade ungida e sagrada pelo deus Socialismo, única capaz de levar o povo brasileiro à terra prometida da utopia. É assim que acredita a militância fanática. Isso explica muito, se não tudo. A cesta é que é podre. 

Todo fanatismo me dá medo. Contra fanático não há lógica nem argumento.



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Franciscano

Aquarela agora acabada. Cabeça feita.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

(Por) Una Cabeza

Uma cabeça.
Às vezes acontece de você terminar uma aquarela trabalhosa, que levou mais de uma sessão para fazer e então sobra um tempinho. Aí você resolve fazer uma coisa rápida com o tempinho que sobra e começa a gostar e a se divertir. No caso em questão, não tinha sobrado nem uma folha de papel próprio para aquarela, que é feito de algodão. Usei a capa de cartão do bloco mesmo, que chupava toda a água assim que se colocava a tinta sobre a superfície. Nada de barriga de tinta para ser dirigida pelo papel e dar uniformidade e continuidade aos diversos tons. Está nisso aí. Resolvi postar o "Making of". Quando terminar mostro o resultado final. Em tempo, é um frade franciscano que eu havia fotografado na Praça de Sâo Pedro, no Vaticano.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Falésias

(Ireland cliffs, falésias, aquarela, acquarella, watercolor)

domingo, 10 de novembro de 2013

Crônicas Californianas III: On the Road

Um dos grandes baratos de uma viagem é imaginá-la antes de embarcar. Uma viagem começa bem antes da viagem em si: podem ser semanas, meses, até anos, dependendo do tempo entre o início do projeto e sua realização. Depois, quando finalmente acontece, é interessante confrontarmos a realidade que encontramos com aquilo que imaginamos. Nem sempre é fácil manter viva a imagem idealizada depois de vivermos a experiência de fato. Às vezes coincide, às vezes pode ser bem diferente. Melhor ou pior, mas dificilmente igual ao imaginado.

Poucos lugares do mundo exibem uma variedade tão grande de paisagens e climas tão próximos uns dos outros. A maioria talvez imagine a Califórnia como um litoral ensolarado com praias de areia fina, gente sarada e bronzeada exibindo-se sobre patins, skates ou em barras de ginástica estufando seus músculos, o que é verdade se você for a Los Angeles. Outros imaginarão boulevards ladeados de palmeiras e mansões espetaculares, percorridos por carrões conversíveis dirigidos por gente famosa escondida atrás de bonés, lenços de cabeça e indefectíveis óculos escuros. Acredito que seja isso mesmo se você pensa em Hollywood. Mas não era essa a Califórnia que eu ansiava por conhecer.

Em direção á Sierra Nevada.
O estado mais próspero dos Estados Unidos tem muito mais. Entre o litoral ensolarado e as montanhas da Sierra Nevada existe um grande hiato semidesértico atravessado por estradas de retas longas e onduladas, uma paisagem árida e monótona, em boa parte irrigada para dar lugar a extensas plantações, na maioria vinhedos e pomares. As estradas em si foram uma atração à parte. Cresci e ainda vivo assistindo road movies como “Easy Rider”, “Thelma e Louise”, “Encurralado”, “Bonnie and Clyde”, “Little Miss Sunshine”, “Lolita”, “Deu a Louca no Mundo”, “Crossroads”, “Rain Man”, e, mais recentemente, a versão cinematográfica de Walter Salles Jr para “On The Road”, o icônico livro já cinquentenário de Jack Kerouak. Além, claro, dos nacionais “Bye-bye Brasil” e “Central do Brasil”. Adoro o gênero. Pegar a estrada tem o significado do inconformismo e da mudança, de deixar para trás o que não se quer mais e partir em busca de algo melhor, muito embora na maioria dos filmes do gênero não fique claro o que se busca e onde se quer chegar. Talvez o destino não tenha nenhuma importância, o próprio ato de estar na estrada significando liberdade, desapego, abertura para novas experiências, a possibilidade de assumir o controle da vida e escrever o próprio destino com novas tintas, a possibilidade de novas amizades, o estreitamento de afinidades recentes.


Califórnia 1, em Big Sur.
Seja margeando o litoral acidentado do Big Sur, seja atravessando desertos; cruzando com comboios de Harley Davidson montadas por tiozões de barba grisalha e jaquetas pretas, as franjas de couro na ponta dos guidons agitando ao vento; e com as magníficas carretas GMC com suas chaminés resfolegando óleo diesel, suas buzinas que parecem apitos de trem ou de navio e seus cromados lindamente exagerados; seja subindo a Sierra Nevada, onde em meia hora se passa do deserto escaldante, os roadrunners (o beep-beep que atazana o coiote no desenho animado) atravessado a pista em alta velocidade, para a úmida e temperada paisagem de pinheiros e sequoias, onde se pode ter que frear bruscamente para não atropelar uma ursa e seus filhotes; seja nos postos de gasolina, verdadeiros oásis de civilização no meio do deserto, ou nos hotéis de beira de estrada, era essa a Califórnia que queríamos ver e vimos. A sensação foi de estarmos em um filme, bem no meio de onde acontece a ação. Então, era sintonizar a rádio Lithium para ouvir Foo Fighters, Alice in Chains, Smashing Pumpkins, Green Day ou Nirvana. Ou então, se a nostalgia levasse mais longe no U Turn do tempo, ajustar o rádio para a Classic Rock e ter o som de dinossauros como Deep Purple, Def Leppard, Iron Maiden, Nazareth, White Snake e Tin Lizzard como trilha sonora para a paisagem que desfilava pela janela. Uma viagem visual e acústica para dentro de um cenário de filme, agora real.

Café, para abastecer o estômago antes da viagem.

Um desses, encapetado, cismou de matar Dennis Weaver em "Encurralado", primeiro sucesso de Steven Spielberg.

Coleguinha de estrada abastecendo.
Subindo a Sierra Nevada.

Little Miss Sunshine, só que em azul.

Atravessando o Sequoia National Park



domingo, 3 de novembro de 2013

Um Trato Quase Perfeito

O sorriso cativante de Cicila
tinha um je ne sais quoi de simpatia
e distinção.
Olavo Bonifácio Magalhães e Otacília Magalhães, nascida Paes Leme (ou née Paes Leme, como preferiam os colunistas sociais da época) eram um casal figurinha carimbada na high society paulistana. Ele bisneto de senador do império e filho de ministro de Getúlio, ela de família paulista de quatrocentos anos, Olavinho e Cicila eram presença obrigatória nos jantares das mais elegantes residências do Jardim Paulista, em recepções nas mansões do Morumbi e nas vernissages mais concorridas de São Paulo. A bem da verdade, eram convidados principalmente, se não exclusivamente, em função da personalidade carismática, da silhueta sempre esbelta e do sorriso cativante de Cicila, que aliava sem esforço simpatia e aquele je ne sais quoi de distinção e fidalguia. Já Olavinho, bem, digamos que era um apêndice que não podia ser amputado quando se queria a presença de Cicila para abrilhantar um evento. Alguns centímetros mais baixo do que ela, barriga proeminente, cavanhaque grisalho sempre bem aparado, ele vivia feliz à sombra de Cicila, como uma avenca à sombra de uma árvore frondosa e florida. Advogado, nunca precisou ser brilhante na profissão. Os bens herdados, dezenas de imóveis alugados em alguns dos melhores pontos comerciais de São Paulo, garantiam uma vida tranquila e mais do que confortável. Caçula de cinco irmãos, era um tímido amante das artes em geral, em especial de música clássica. Não fosse pelo prazer que sentia em ver a esposa brilhar em sociedade, talvez não a frequentasse tanto. Sua maior alegria era o amor sincero que lhe devotava sua amada Cicila e as muitas qualidades que ele tanto admirava nela, entre as quais seus dotes como pianista. Cicila era exímia ao teclado, com talento especial para interpretar as sutilezas de Debussy. Teria sido uma concertista de renome, não tivesse se apaixonado por Olavinho aos 22 aninhos de idade. “Um desperdício!”, diziam muitos com mal disfarçada inveja. Abastados, cosmopolitas, sem filhos, muito bem relacionados e apaixonados um pelo outro, o fato é que eram felizes.

Os maiores amigos do casal eram Hipólito Jaguaribe e sua esposa Maria Júlia. Polito, como era mais conhecido, era, em muitos aspectos, o inverso de Olavinho. Herdeiro de barões do açúcar de Pernambuco, Polito era expansivo, galanteador e amante do bom scotch whisky, que consumia em quantidades industriais. Assíduo frequentador de Mônaco, Las Vegas e onde mais houvesse uma roleta e um carteado, tinha cavalos no Jockey Club, um dos quais já vencera um Grande Prêmio Cidade de São Paulo. Apesar das diferenças, e talvez até por causa delas, admiravam mutuamente as qualidades que faltavam em um e sobravam no outro, como sempre acontece entre os sensatos e tímidos e os amantes da vida intensa. Já Maria Júlia, segunda esposa de Polito, tinha origem, digamos, menos nobre. Polito a conhecera duas décadas antes e enlouquecera um pouco mais do que de costume com o lindo rosto e o corpo escultural. Nunca ficou muito claro qual era a profissão de Julinha anteriormente, não faltando hipóteses maldosas para o mistério. O fato é que Polito arcou com um desquite caríssimo para poder desfilar a nova esposa em meio a seus pares, causando um misto de censura velada por parte das madames e inveja mal disfarçada por parte dos amigos. Julinha acabou descendo goela abaixo da pauliceia e em poucos anos, a bem da justiça também em função de sua rápida adaptação ao novo meio social, não se falava mais nisso.

Até que um dia Cicila faleceu. A doença galopante a levou em dois meses, apesar dos esforços dos melhores especialistas do Albert Einstein. Isso se deu apenas algumas semanas antes de também falecer Polito em um hotel em Las Vegas, as circunstâncias nunca bem esclarecidas.

Olavinho viu-se privado de seu chão, de seu norte, de sua razão de viver. Afastou-se das frivolidades e relutava em atender os apelos de seus poucos amigos para deixar a reclusão. A vida deixou de lhe fazer sentido. Já Julinha Jaguaribe também perdeu o chão, mas em sentido menos figurado. Perdeu o teto também. Polito conseguira paulatinamente dilapidar toda a sua herança, inclusive hipotecando sua cobertura de 370 metros quadrados na Alameda Santos. Para sobreviver, Julinha arriscou-se no comércio de antiguidades e joias, a maioria das quais ela mesmo fornecia. Depois de algum tempo, viu-se em situação de penúria indisfarçável.

Foi então que alguns amigos bem intencionados tiveram uma ideia brilhante e de obviedade incontestável: porque não se casavam Olavinho e Julinha? Já eram tão íntimos, já tinham viajado juntos tantas vezes ao exterior, cada um com seu cônjuge, frequentavam os mesmos amigos, os mesmos ambientes. Tudo bem, Cicila era insubstituível, não se tratava disso, mas Olavinho não tinha herdeiros e Julinha, embora já na faixa dos cinquenta, era ainda muito bonita e jovial, uma injeção de vida na existência sombria que ele vinha experimentando como viúvo profissional. Convencer Julinha a agarrar aquele bote salva-vidas foi um pouco menos difícil. Acabaram se casando.

Mas o que não ficara bem esclarecido era até que ponto o casamento era à vera. Olavinho, já pelos setenta e muitos, não era ainda propriamente um defunto e, com toda razão, entendera que teria algumas vantagens adicionais além de companhia à mesa de refeições. Julinha, que se fizera de desentendida até então, ficou horrorizada. Já tinha se conformado com a aposentadoria carnal, tornara-se católica praticante e frequentava as obras sociais da diocese. Alegou que nada disso tinha sido combinado, o que era verdade, mas nem precisava, alegou Olavinho com toda a razão. A coisa ficou nesse impasse. O clima em cada refeição era tenso, Olavinho tendo acessos ocasionais de fúria depois do jantar. Mas eles continuavam dormindo em quartos separados, Julinha tendo o cuidado de trancar a porta por dentro.


Recentemente, a conselho de amigas, Julinha decidiu que o apartamento precisava de uma empregada que dormisse no emprego. Depois de algumas entrevistas, foi contratada Jaciara, cozinheira razoável mas bastante ambiciosa, com vontade de aprender e de subir na vida. Desde então, o clima naquele lar parece um pouco mais calmo. Não que a jovem Jaciara seja exímia na cozinha, realmente não é o caso. Mas Julinha tem estado cada vez mais ocupada com as obras sociais, o que demanda reuniões e mais reuniões, inclusive à noite. E Jaciara é muito simpática e atenciosa, além de bem feitinha de corpo.

sábado, 2 de novembro de 2013

Lago Hume

Lago Hume, no King's Canyon National Park, California. (watercolor, aquarela, acquarelle)

domingo, 27 de outubro de 2013

Em Caso de Emergência

Eles já tinham começado a bebericar o vinho e a provar as entradas quando Richetti tirou o estojo de veludo negro do bolso interno do paletó e o colocou no centro da mesa, ao lado do candelabro. Seus olhos, brilhando de expectativa,  se ergueram em direção aos de Leila, que não conseguiu deixar de ser óbvia: “Para mim?” Ele respondeu com um sorriso, o olhar ainda fixo no dela. Depois de alguns segundos (os olhos dela mostravam surpresa, mas não foi exatamente um brilho o que ele viu; mas poderia ser só impressão ou excesso de expectativa) ela lentamente baixou o olhar de volta ao estojo clássico, que se destacava contra o branco da toalha. Segurou-o com delicadeza por alguns instantes antes de abri-lo. Percebeu, junto à curiosidade, um certo receio (a caixa de Pandora, o pensamento deslocado esvoaçou silencioso como um morcego na noite). Pressionou com cuidado o centro na parte inferior da frente da caixa. Sim, ela já ganhara uma joia antes, apenas uma. O fecho oculto sob o veludo fez clique, mais uma vibração que um som. Dentro, sob o forro também negro, um par de brincos. Dois pássaros em ouro branco pousavam sobre flores tropicais feitas de gemas azuis, um motivo clássico em uma bela interpretação contemporânea. “Meu Deus!”, ela deixou escapar.

Apenas duas semanas antes Leila fora convidada a participar de um programa de entrevistas num canal de TV. Depois de investir pesado em cursos de medicina estética e gastar montes de dinheiro em decoração e arquitetura no seu consultório dermatológico, boa parte dos quais emprestados pelo banco, as coisas finalmente tinham deslanchado. Uma amiga de infância de sua irmã mais nova, aquela que fizera formação em teatro depois de perder dois vestibulares para direito, emplacara recentemente um bom papel secundário na novela das seis. Essa moça procurou-a no consultório, preocupada com sua acne renitente aos vinte e poucos anos. Caso simples, bom resultado. A moça indicou-a para suas antigas colegas de “Malhação”. Aos poucos, atrizes e atores famosos foram aparecendo e ela começou a viver seus minutos de fama, com direito a uma capa na Revista de Domingo. Bom para os negócios. No telefonema da TV informaram-lhe quais seriam os outros convidados do programa. A estrela da tarde seria Rodrigo Richetti, o escritor fenômeno, o intelectual que vinha conseguindo a façanha de vender centenas de milhares de livros sem abrir mão da qualidade literária, o maior fenômeno editorial brasileiro desde Paulo Coelho. Aqueles que automaticamente ligavam seu nome a vaidade e futilidade em função de seu ganha-pão dificilmente suspeitariam ser Leila uma leitora voraz. Se pudesse escolher uma outra profissão, Leila secretamente gostaria de ser crítica literária.

A perspectiva de conhecer Richetti pessoalmente a deixou excitada. Afinal, lera três de seus livros e gostara bastante. Romances psicológicos, personagens complexos, angustiados e profundamente verossímeis vivendo enredos envolventes. Ele era presença já anunciada na próxima Flip e, de forma talvez inédita, seu nome vinha sendo divulgado, com o mesmo destaque que o de convidados estrangeiros pelos organizadores da feira. Realmente, um ótimo escritor nacional, que conseguira quebrar uma sequência de romances contemporâneos ingleses e americanos na cabeceira de Leila.

À medida que se aproximava o dia da gravação, os pacientes daquela próxima quarta à tarde já devidamente remarcados, ela começou a se dar conta de que seu desejo em conhecê-lo talvez não se resumisse às motivações literárias. Lera tudo que conseguira achar na internet sobre Richetti: resenhas, entrevistas e artigos, mais dois vídeos de entrevistas no Youtube. Richetti era alto, claro e ligeiramente calvo, os cabelos desalinhados e louros um pouco crescidos na nuca quase chegavam aos ombros, um estilo que lhe pareceu mais fruto de descuido do que algo estudado. Sob a testa grande, achou seus olhos pequenos, inteligentes e penetrantes, mas o arco das sobrancelhas, ligeiramente arqueados para os lados sugeriam timidez e desamparo. Leu que ele vinha de uma família abastada de industriais do ramo de cosméticos. Fora casado com uma artista plástica de renome, da qual estava separado havia alguns anos. Uma filha já crescida e nenhuma badalação no currículo, uma personalidade reservada, concluiu.

Leila também havia desfeito um casamento curto e não tivera tempo de ter filhos. Depois, vivera dois casos que se poderiam considerar sérios. O segundo, um pouco mais longo, terminara de forma melancólica depois que ele descobriu sofrer de um grave problema de saúde. Isso havia mais de cinco anos. Desde então seus pensamentos estavam todos focados no trabalho. A bem da verdade, a não ser aos domingos e na meia hora dos dias de semana, antes de adormecer, quando supria sua lacuna emocional com literatura. Vez por outra pensava se algum dia voltaria a ter um envolvimento sério. Era uma mulher bonita aos quarenta, bem conservada e bem tratada, como, aliás, exigia a profissão de zelar pela beleza alheia. Os melhores cremes para o rosto e para a pele, os melhores xampus, horas semanais no salão de beleza e na academia. Ficar remoendo esperanças em relação a seu futuro afetivo só servia para causar sofrimento, além de ser completamente inútil, melhor focar no trabalho e não pensar no assunto, se tivesse que acontecer, que acontecesse, racionalizava. Ter-se tornado conhecida e seu relacionamento profissional com pessoas verdadeiramente famosas tivera o efeito paradoxal de afastar os homens. Até mesmo as abordagens daqueles que visavam relações de curtíssimo prazo, que nem eram tão frequentes quanto se poderia imaginar, escassearam ainda mais.

No dia da gravação Leila se viu demorando mais do que o habitual na escolha do que vestir, mesmo levando-se em conta que iria aparecer na televisão. Um vestido parecia curto demais e um pouco vulgar; outro, sério demais, lhe daria uma aparência excessivamente velha; um terceiro era por demais sem graça, e assim por diante. Sentia uma excitação estranha que só conseguiu decifrar quando escolhia a calcinha que usaria naquela tarde. Sim, era isso: ela não se sentia tão excitada arrumando-se para uma ocasião desde a última vez em que saíra para o primeiro encontro amoroso com seu último namorado. Achou aquilo engraçado, deu uma risadinha nervosa, a comédia daquela situação. Por causa do Richetti, que ridícula. Acabou optando pelo vestidinho cinza, cuja cor discreta fazia contraponto com o corte justo e o decote amplo. Sapatos altos bicolores em cinza e preto e bijuterias douradas, bem vistosas, completariam o visual.

Os quatro convidados daquele programa, dispostos pela produção, sentavam-se intercalados com três jornalistas, a veterana âncora do programa no centro do semicírculo. Richetti ficou posicionado quase diametralmente oposto a Leila. Ele vestia-se com discrição e elegância, blazer bem talhado sobre camisa branca sem gravata. Pessoalmente, Leila avaliou-o: parecia mais novo do que os seus 54 anos que ela descobrira ao fazer o dever de casa.  Enquanto aguardavam o início da gravação, percebeu os olhos dele voltados para ela ocasionalmente, mas ele sustentou rapidamente o olhar apenas uma vez. Um sorriso discreto e hesitante, que fez com que as pernas dela se descruzassem e cruzassem novamente de forma automática, aquele reflexo medular ancestral que as mulheres não conseguem controlar.

Ela foi a segunda a ser entrevistada e a que recebeu o maior número de ligações e mensagens de texto da audiência. Richetti, a estrela da tarde foi o último. Seu currículo sucinto e os números robustos de suas vendas foram relatados pela âncora. Depois, as perguntas dos vários jornalistas foram se sucedendo de maneira óbvia e previsível. É incrível a resignação dos escritores em responder sempre as mesmas indagações aborrecidas, Leila pensou: o quanto seus livros têm de autobiográfico, se tal personagem seria seu alter-ego, como é seu processo criativo, as baboseiras de sempre. A certa altura Leila pediu a palavra e fez uma pergunta sobre um aspecto sutil que permeava os três romances dele que ela havia lido: o conflito entre as pulsões atávicas, muitas vezes cruéis, e a determinação individual das personagens de seus livros. Ele ergueu-se na poltrona: “Ótima pergunta!”. Pareceu ser a primeira que ele realmente teve interesse em responder. “Ela realmente leu as palavras e entendeu as entrelinhas”, pensou.

Terminado o programa, ele só tinha olhos para Leila e sentiu um estremecimento quando ela se aproximou: “Pena eu ter-me esquecido de trazer um de seus livros para um autógrafo, que idiota eu sou”. “Podemos providenciar isso numa outra ocasião, não?” disse ele mordendo a isca. E trocaram seus endereços de e-mail e perfis na rede social.

Seguiram-se dias de bate papo virtual, naquele enlevo que só as paixões que estão ainda a se acenderem proporcionam. A cada intervalo entre duas consultas, a cada sinal fechado, madrugada adentro e logo de manhã cedo Leila e Richetti faziam incursões, explorando o terreno e expondo o próprio flanco ao inimigo, um jogo de palavras que extraía de um e de outro o melhor de sua inteligência, bom humor e erudição, parágrafos que caberiam em um roteiro de filme noir estrelado por Humphrey Bogard e Ingrid Bergman. Leila acordava sorrindo e deitava-se sonhando acordada. O mundo parecia mais colorido, os clientes mais simpáticos, os contratempos menores. O sorriso brotava-lhe com facilidade incontornável, quase irritante. Isso não passou despercebido a Fátima, sua secretária. “Viu o passarinho azul, doutora?” Depois daquela semana em que cuidou de sentir o anzol bem cravado, marcaram um encontro. Ele viria de Curitiba onde morava para um evento cultural, outra entrevista com plateia em uma livraria.

Dois dias arrastaram-se intermináveis até a data do encontro. Leila chegou cedo ao anfiteatro e sentou-se na cadeira do canto na primeira fila, um misto calculado de discrição e exposição aos olhos dele. Richetti entrou no palco pela coxia, os olhos aflitos varrendo a plateia até localizá-la. Depois, mal conseguia concentrar-se nas perguntas, os olhos desviando-se para ela a cada instante. A certa altura, um chato tentou roubar os holofotes com uma daquelas perguntas que são menos interesse legítimo na resposta que discurso narcisista, o que levou o moderador experiente a encerrar a entrevista com a resposta padrão para essas situações: “Então, fica aí a pergunta. Muito obrigado pela participação da plateia, etc, etc.”

De pé, Leila esperou pacientemente até que ele se livrasse dos cumprimentos, tapinhas nas costas, pedidos de autógrafos e fotos diante de aparelhos celulares ao lado de fãs com sorriso de aeromoça. A fama cobra seu preço, pensou entre ansiosa e divertida. Finalmente, puderam se aproximar e ficar frente a frente, os corpos alinhados, paralelos, como costumam ficar os corpos quando o foco no outro é total. A respiração de ambos ligeiramente mais rápida, o sorriso recusando-se a ser contido. “Como vai?” “Como vai você?” “Você está ainda mais linda hoje.”

Leila indicou um restaurante mediterrâneo discreto e de boa cozinha. Beberam vinho e conversaram longamente. Richetti estava maravilhado. Ela transitava com desenvoltura por literatura contemporânea e pelos clássicos, inclusive por alguns autores que ele não tinha lido. Voltaram a falar sobre arte, viagens e tangenciaram com prudência alguns temas políticos. Leila tinha opiniões e curiosidade sobre quase tudo, era uma interlocutora sagaz e excitante, não apenas do ponto de vista intelectual. “Que achado!”, pensou Richetti. Ao fim do jantar ela sentia-se impressionada com os modos gentis, a simpatia discreta e a vasta cultura artística dele. Parecia que teriam assunto para décadas de conversa interessante.

A noite fluiu inevitável como um rio para o apartamento dela. Na sala, Leila acendeu apenas o abajur ao lado do sofá. Richetti elogiou a decoração enquanto esquadrinhava o ambiente, ela quase podendo ouvir o cérebro de escritor dele trabalhando enquanto fazia inferências e tirava conclusões de cada móvel de cada quadro, de cada objeto de decoração e lembranças de viagens. Examinou a prateleira onde estavam os CDs “com a atenção de um detetive em cena de crime”, ela pensou ao relembrar a cena mais tarde.
“Ora vejam, você também gosta de ópera? Ou herdou os discos de alguma tia?”

“Não, eu realmente gosto. Mas só ouço quando estou sozinha.” O que não é nada raro, completou mentalmente. Só falta ele gostar de ópera também.

“E você, também curte uma ópera?”

“Gosto de música clássica em geral, não especificamente ópera. Quais as suas favoritas?”
“Quem me emociona mesmo é Wagner. Aquela coisa épica, cheia de som e fúria, mais do que o romantismo choroso dos italianos.”

Depois ele esquadrinhou os retratos no aparador. Fotos em sua maioria de viagens com as amigas. Ele deteve-se em um porta-retratos que continha uma foto de família tirada uns cinco anos antes no aniversário de oitenta anos uma tia. Quis saber quem era cada um. Por último, perguntou quem era aquele rapaz bonito que a abraçava.

“Esse é o Betinho, meu primo, o filho mais novo da tia Clara.”

Depois houve um interesse excessivamente demorado, quase irritante, na estante de livros. Ela enfiou-se entre ele e as prateleiras olhando-o fixamente, a boca entreaberta.

Quando a manhã começou a invadir o quarto, Leila já estava acordada. Folheava com desinteresse um dos livros que tinha na cabeceira. Repassava as emoções da noite e as chances de as coisas se tornarem sérias dali em diante. Ele tinha as qualidades raras que ela prezava tanto. Na verdade, muitas vezes ela oscilara entre pensar serem esses predicados essenciais em um homem e achar que estas eram exigências pouco práticas para quem deseja a sério livrar-se da solidão. Ele parecia estar verdadeiramente interessado, e não apenas no seu corpo. Talvez ele pudesse ter demonstrado de forma mais enfática o interesse físico, ter sido um pouco menos gentil entre os lençóis. A certa altura pareceu-lhe que ele a olhava como quem olha respeitoso e embevecido um quadro de um grande mestre, como quem manuseia uma porcelana antiga ou um manuscrito raro. Talvez fosse apenas o jeito dele, o tempo dele, uma noite apenas era muito pouco para conclusões definitivas. O saldo, afinal, era extremamente feliz. Ela suspirou, sorriu e passou a mão pelas costas dele.

Poucos dias mais e ela desembarcava no aeroporto de Curitiba. Ele a aguardava no portão de desembarque com um enorme e quase embaraçoso buquê de flores tropicais. Era a vez de ele mostrar a ela onde morava, disse já na direção do sedã quatro portas, enquanto deixavam o estacionamento.

A sala do apartamento no quarto andar era ampla e clara, e tinha dimensões que não condiziam com a condição de homem sozinho do proprietário. Diversas telas a óleo e acrílico, esculturas e gravuras (inclusive duas de autoria da ex-esposa, ela notou) adornavam com elegância discreta o cômodo voltado para um parque e para o nascente. Num cômodo anexo, a mesa de trabalho atulhada e uma ampla estante em madeira escura. Ela correu as lombadas com a ponta do indicador, comentando excitada quando reconhecia um título ou um autor que já tivesse lido ou desejasse ler. Richetti a observava embevecido de uma certa distância, a mente oscilando entre observar o corpo de Leila, o som de sua voz e um sentimento narcísico em exibir-se através de seus livros, seus quadros, sua casa.

xxxxx

“Gostou?”

“São lindos! Meu Deus, Richetti, isso é uma joia. Sinceramente, meu amor, não precisava”. Tentava imaginar quanto teriam custado. Certamente uma pequena fortuna.

“Coloque os brincos, vamos. Estou há dias imaginando você usando-os”

Enquanto tirava os brincos que usava, Leila sentia-se confusa. Qualquer mulher no mundo estaria radiante com o mimo, mas aquela demonstração de prodigalidade em tão pouco tempo de relacionamento a constrangia. Ele estava inteiramente empenhado naquela relação tão fresca, tão recente, enquanto ela tinha suas reticências, que ela considerava perfeitamente sensatas àquela altura dos acontecimentos. Um descompasso que a incomodava. Mas afinal, de que ela tinha medo? Que mulher não sonha, quantas vezes ela própria não sonhara em diversas fases da vida, em ter um homem assim apaixonado a seus pés? Um homem culto, gentil e educado. E de posses consideráveis. Não que ela precisasse de alguém que a bancasse financeiramente, tinha orgulho confesso de seu sucesso profissional, de sua independência financeira. Mas essas últimas semanas não tinham sido tão agradavelmente intensas? Não lembrava se alguma vez na vida tinha vivido tão intensamente do ponto de vista emocional. Provavelmente na adolescência, mas não conseguia mais se lembrar se isso fora verdade um dia. Que mal poderia haver em entregar-se a esse homem, viver assim ao sabor da emoção, deixar-se apaixonar, enlouquecer um pouco que fosse, por algum tempo que fosse. Quantas mulheres na sua idade podiam sequer cogitar viver essa experiência a essa altura da vida? Quantas vezes ela própria concluíra ser melhor se contentar com a vida amorosa como alguma coisa da qual ela já tivera seu quinhão e pronto, que se desse por satisfeita e conformada?

Foi quando Richetti pôs a mão novamente no bolso interno do paletó, agora do lado direito. Sacou um envelope branco, que entregou a Leila.

“Que é isso?”

“Abra, meu amor.”

Dentro, duas passagens para Buenos Aires para dali a uma semana e uma folha impressa em computador que ela não conseguiu identificar de que se tratava de imediato. Ele não esperou que ela decifrasse o texto em espanhol.

“Duas entradas para assistirmos juntos ‘O Holandês Voador’ no Teatro Colón, em Buenos Aires. Wagner, Café Tortoni, nós dois dançando tango. Que tal?”

Os lábios de Leila se entreabriram, mas ela não soube o que dizer. Confusa, seus olhos pararam na placa vermelha, pequena e luminosa que indicava a saída de emergência do restaurante, que ela via bem acima do ombro esquerdo dele. Seus olhos permaneceram fixos ali, até que ele se voltou para trás, tentando saber o quê ou quem prendera sua atenção.


“Que foi, minha querida? Viu alguém conhecido? Quem é?”

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Obrigado, Nick

Como todas as cidades pequenas no litoral ao sul de São Francisco, Morro Bay tem uma marina. A marina de Morro Bay, como tantas outras à beira do Pacífico, tem restaurantes de frutos do mar, vento frio, gaivotas gritando sem parar, pelicanos alisando as penas e leões marinhos fazendo barulho enquanto pegam um solzinho sobre as pedras do quebra-mar. E, claro muitos barcos atracados no píer: de turismo, de lazer e de pesca, grandes e pequenos.

Era de tardinha. Eu e Suely passeávamos despreocupados, tirando fotos, curtindo a vista e o sol poente. Então, demos com o monumento. Bem, não era exatamente um monumento. Na verdade, ele nada tinha de monumental. Fundido em bronze, está aparafusado no calçadão bem defronte ao atracadouro. Não faz loas a ninguém que tenha liderado exércitos e, de forma heroica, esmagado inimigos numericamente superiores. Não homenageia nenhum político ou estadista, nenhum grande artista. Ninguém que tenha feito uma grande descoberta científica ou mudado o rumo da História. Ele apenas rende homenagem e pretende estender para gerações futuras a lembrança de Nick, um mecânico de barcos.

Estávamos admirando e fotografando a escultura quando o dono de um dos barcos, nos seus sessenta e muitos, pele avermelhada de sol, cabelos e bigodes fartos e brancos, se acercou de nós e, sem que pedíssemos, nos contou sobre Nick: “Pau para toda obra, para ele não tinha tempo ruim. Sempre disponível, sempre bem humorado, ótimo mecânico e ótimo caráter. Se você o tivesse conhecido entenderia a homenagem”, disse.

A escultura em bronze reproduzia não Nick em si, mas o banco surrado de sua pick-up em todos os detalhes: os gomos do estofamento, a logomarca da Ford no encosto, o forro rasgado do assento, a espuma aparente e gasta do lado do motorista, que o traseiro e as coxas de Nick esculpiram lentamente ao longo de anos de idas e vindas entre sua casa, as lojas de peças e o píer.  Algumas molas começavam a dar o ar da graça através da espuma puída. Do lado do carona descansavam peças, ferramentas, latas de graxa e de óleo. No encosto, uma placa dizia apenas “Obrigado Nick, 1946 – 2008”. A escultura fora encomendada por seus antigos clientes a um artista local, que usou como molde o banco original da pick-up, cedido pela família do falecido. Num mundo de tantas homenagens faraônicas a personalidades controversas, como “Ponte Presidente Costa e Silva” ou “Rodovia Presidente João Goulart”, aquela destoa. Não foi encomendada pelo Estado, não tem intenções ideológicas nem corporativistas, não pretende puxar o saco de poderosos. Apenas homenageia um cara legal.


Fiquei imaginando como seria Nick: macacão surrado, boné encardido, tênis ou botinas velhas, talvez uma barba grisalha por fazer, cheirando a graxa, óleo diesel, maresia e peixe. Seu rosto se iluminando ao ver um grande motor central voltando a girar, roncar e soltar fumaça depois de ter suas engrenagens abertas e retificadas por seus dedos calosos de unhas encardidas. Imaginei-o no fim do dia tomando uma cerveja com seus clientes em um daqueles bares, riso frouxo, ouvindo histórias de mar e mentiras de pescadores, comentando a temporada ruim de seu time de futebol ou de baseball antes de ir para casa. Ou talvez embarcando no meio da noite para socorrer um barco a deriva no meio do Pacífico. Uma alma elevada, humilde e gentil. Lembrei-me de Donald Shimoda, o mecânico, aviador e messias nas horas vagas, do livro “Ilusões”, de Richard Bach. Talvez ele fosse isso mesmo, um messias que se revelou a um pequeno grupo de pescadores. Ou talvez fosse apenas um cara legal. O mundo precisa menos de heróis e estadistas, e mais disso: caras legais. Obrigado Nick.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Crônicas Californianas 2: São Francisco

(clique nos links em "laranja" para ver cenas dos filmes)

Entre as grandes cidades americanas, apenas Nova York rivaliza com São Francisco em termos de apelo cultural e charme, em minha opinião. E sendo relativamente pequena (800 mil habitantes) quando comparada a outras grandes cidades de destino na América, torna-se mais amigável e acolhedora. A simples perspectiva de ver a Golden Gate Bridge já era razão mais que suficiente para desejar conhecê-la. Ver de perto a locação onde Kim Novak se joga nas águas geladas da baía bem debaixo da ponte e é resgatada por James Stewart em “Vertigo” (“Um Corpo Que Cai”), descer pelas mesmas ladeiras e lombadas por onde Steve McQueen fez uma das mais alucinantes perseguições automobilísticas da história do cinema em "Bullit" (duelo de V8s: Charger x Mustang) ou ficar defronte a uma das casinhas vitorianas onde Robin Williams foi trabalhar como babá dos próprios filhos caracterizado como Mrs. Doubtfire em “Uma Babá Quase Perfeita” eram outros desejos a serem realizados. Gosto de fazer e recomendo que o leitor também experimente: assistir quantos filmes puder ambientados na cidade ou região que se vai visitar, seja ela Paris (“Antes do Por do Sol”), Nova York (“Tiros em NY”, de Woody Allen) ou a Toscana (“Sob o Sol da Toscana”) por exemplo. É uma maneira de preparar o espírito e ambientar o coração com antecedência. Quando finalmente nos vemos na mesma locação, a sensação é de estarmos vivendo uma cena de filme, só que real.

Além de cenários famosos, São Francisco tem uma história movimentada. Foi fundada a partir de uma missão de padres franciscanos espanhóis  junto à povoação de Yerba Buena em 1776. Já anexada pelos Estados Unidos depois da guerra contra o México, foi sacudida pela corrida do ouro quando este foi descoberto logo ali na Sierra Nevada em 1849 (daí o nome do time de futebol americano local ser “San Francisco 49ers”). Aventureiros de todo o mundo acorreram à Califórnia, inclusive milhares de chineses e japoneses. Outro sacolejo, este mais violento, aconteceu em 1906: o famoso terremoto que, com o incêndio de três dias que se seguiu, destruiu três quartos da cidade. Rapidamente reconstruída, São Francisco foi a principal sede naval americana no Pacífico durante a Segunda Grande Guerra. Todos os japoneses foram então expropriados e trancafiados em campos de concentração (poucos retornaram à cidade depois) e uma forte migração negra do leste veio trabalhar nos estaleiros. Depois da guerra, a cidade, já tão cosmopolita, passou a atrair artistas, músicos e escritores, inclusive muitos daqueles que estavam na Europa nos “anos loucos”. Estes lançaram os alicerces do que viria a se tornar a capital americana da contracultura, da geração “beat” dos anos 1950, dos hippies dos 1960 e da comunidade gay americana nos anos 1970-80. Talvez não seja apenas coincidência o nome do primeiro povoamento ter sido Yerba Buena (erva boa).


Cada etapa dessa história conturbada deixou sua marca: o centro da cidade exibe arranha-céus à prova de terremotos e casinhas vitorianas no mesmo enquadramento de câmara. A maior Chinatown americana, onde se pode comprar comidas que a maioria de nós jamais poria na boca, como pepino do mar seco, faz divisa com North Beach, o bairro italiano (a única fronteira sino-italiana do mundo) com seus inferninhos e bares de música ao vivo. Castro, o bairro da comunidade GLBT, sediou as pioneiras manifestações na luta pelos direitos civis dessas minorias e foi cenário da primeira passeata do orgulho gay do mundo.  Fica aos pés dos Twin Peaks, imortalizados pela série de David Lynch. Em suas ruas pacatas, as vitrines exibem “consolos” em todas as cores, texturas e tamanhos emoldurando cartazes de shows eróticos, tudo ao lado de prosaicas mercearias de bairro e cafés convidativos. Um deles homenageia Harvey Milk (imortalizado no filme “Milk”), o primeiro político assumidamente gay dos Estados Unidos. Em Ashbury Heights o "flower power" está vivo e se mexendo: lojas de ervas exalam baratos, outras vendem saias ciganas e camisetas "tie&die" ao lado de estúdios de piercing e tatoo. Tem ainda a livraria Bound Together, especializada em títulos anarquistas e afins. Mais badalado, o Fisherman’s Wharf, antigo entreposto pesqueiro, virou uma espécie de arapuca-de-tirar-dinheiro-de-turista, mas dali se pode partir em uma bicicleta alugada até a Golden Gate, inclusive atravessando-a em direção a Salsalito, se você estiver disposto e em forma. Ali também se pode saborear a cremosa e autêntica “clam shouder” (sopa de frutos do mar) servida em cuia de pão italiano na padaria Boudin, onde pães que seguem a mesma receita trazida da Itália na época da corrida do ouro perfumam todo o quarteirão e provocam filas que se estendem pela calçada quase o dia inteiro. Dezenas de leões marinhos descansam e fazem barulho nas balsas de madeira construídas especialmente para atraí-los. Abstraindo o burburinho dos turistas, é possível saborear de graça a brisa fria e úmida que vem do Pacífico para formar os densos nevoeiros que alternadamente encobrem e revelam as cores avermelhadas da Golden Gate, ouvir o pio incessante das gaivotas, apreciar a visão dos veleiros que passam em alta velocidade e o voo em fila indiana dos albatrozes diante da ilha de Alcatraz, tudo isso sem gastar um "dime".

(continua)

Casas vitorianas (essas são as "Painted Ladies") e arranha céus.

Alimentos inusitados em Chinatown.

Bairro Castro: O estandarte do arco-íris foi criado em São Francisco.

O flower-power ainda manda em Ashbury Heights.

O novo e o velho em harmonia.

Fim de tarde próximo ao Fisherman's Wharf: curtir a brisa, a vista de Alcatraz, os veleiros e as aves marinhas é de graça.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Porque não Miami?


Miami: trocando o amarelo gema dos táxis por um tom mais canarinho,
bem que dava para passar por Barra da Tijuca
Miami é, provavelmente, a cidade americana favorita dos turistas brasileiros. Estive recentemente por lá por conta de um congresso médico e, até certo ponto, sou capaz de entender as razões dessa escolha dos patrícios. Em Miami, quando se entra em uma loja ou se aborda alguém na rua, nunca se sabe se a conversa vai fluir na língua de Shakespeare, de Cervantes, de Camões ou em uma mistura amigável e inacreditavelmente compreensível dos três idiomas. Uma Babel às avessas. Miami é quente, não neva nunca (tem lá seus furacões, é verdade), é plana, à beira-mar e tem avenidas largas que nos remetem de certa forma à Barra da Tijuca. E ainda permite que se saboreie um bom feijão com arroz em um dos muitos restaurantes cubanos. Negros, morenos e branquelos, em todas as suas nuances, circulam democraticamente misturados a turistas de todo o mundo em Miami Beach. Dá para suar a camisa no sol, ver gente em roupa de banho na rua, pegar uma praia de areia branquinha e nadar em um mar de temperatura agradável. Brasileiros abarrotam os shoppings de Miami comprando camisas, calças, vestidos, tênis, meias, carrinhos de bebê, maquiagem e o que mais se possa enfiar em uma mala tamanho jumbo, torcendo para que, quando a hora da verdade chegar, os orixás distraiam a atenção da Receita no momento de enveredar com cara de pôquer pela fila do “nada a declarar” na aduana brasileira.  Então, estaremos de volta à nossa Pasárgada, doidos para desfilar a muamba ornada com a indefectível bandeirinha azul, vermelha e branca da Tommy Hilfiger pelas passarelas tupiniquins. Miami é a América onde nos sentimos mais à vontade e menos estrangeiros.


Tudo bem, eu entendo. De minha parte, quando quero ver gente usando Tommy Hilfiger em shopping center economizo a passagem de avião e fico pelo Barra Shopping mesmo.

Diários de Viagem: Crônicas Californianas

Nas próximas semanas pretendo dividir com os leitores as impressões causadas pelo Estado do Sol neste viajante bissexto. Não tenho nada planejado em relação á forma. Algumas crônicas, fotos, relatos curtos, talvez uma ou outra aquarela ou colagens. Nada que pretenda esgotar o assunto, claro. Só o que ficou grudado em mim depois de duas semanas neste estado cativante e cheio de diversidade. Californication, California dreaming, yes I'm going to California in my mind, being sure to wear some flowers in my hair. Vem comigo, no melhor estilo Goulart de Andrade.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Abazzia di Sant' Antimo

Para quem ficou curioso:

Esta abadia fica nas proximidades da pequena cidade medieval de Montalcino, no coração da Toscana. Montalcino é a terra dos famosos vinhos Brunello di Montalcino

A origem da Abazzia (abadia) di Sant'Antimo remonta o ano de 715, quando foi construída uma pequena capela no local onde estariam enterrados os restos mortais de Santo Antimo de Arezzo. O prédio atual começou a ser construído no ano de 1.118 em estilo carolíngio.

Nela foram filmadas algumas cenas de "Irmão Sol, Irmã Lua", filme de Franco Zefirelli que retrata a vida de São Francisco de Assis.

Na Itália, visitamos catedrais belas e majestosas como as de Siena, de Florença e a própria Basílica de São Pedro, no Vaticano. Em nenhuma delas me senti tão inspirado, tão próximo do Divino quanto no silêncio da singela nave ou sentindo a brisa morna da Toscana à sombra das oliveiras centenárias que guardam esta chiesa milenar.

Mais informações: http://es.wikipedia.org/wiki/Abad%C3%ADa_de_Sant'Antimo

Como não podia deixar de ser, a Abadia está cercada de vinhedos, ciprestes e olivais.
Afinal, estamos na Toscana.

A nave é austera e simples, mas muito inspiradora.
Vista externa da Abadia.

Toscana 3: Vista da Abazzia di Sant' Antimo

Vista da Abbazia di Sant'Antimo, próximo a Montalcino, Toscana.
(Watercolor, Acquarella, Aquarelle)

terça-feira, 30 de julho de 2013

Diários de Viagem: Cotswold, UK

As paisagens e vilas da série Downton Abbey, que vem fazendo sucesso na TV a cabo, remeteu-me à nossa visita à região de Cotswold em 2010. Havíamos passado alguns dias usufruindo da hospitalidade de nossos amigos Marcus e Tina em Putney, o charmoso bairro na área sul de Londres. Agora, por sugestão deles, rumávamos de carro para o norte. Meus neurônios, depois das dificuldades iniciais, estavam se reprogramando com surpreendente rapidez para dirigir pelo lado esquerdo da estrada e ao volante do lado direito de nosso Ford Focus. Depois de uma visita à veneranda cidade universitária de Oxford, deixávamo-nos guiar pelos comandos de Mildred, a voz britânica e feminina de nosso GPS. Tínhamos feito reserva num bed & breakfast nos arredores da cidade de Chippin Campden, que seria nossa base nas incursões pela região.

The Ebrington Arms
(clique nas fotos para ampliá-las)
No fim da tarde, depois de levar-nos através de estradinhas vicinais impecavelmente asfaltadas que cortavam pequenas propriedades rurais, Mildred deixou-nos diante do Ebrington Arms, uma  pequena hospedagem que vem recebendo viajantes desde 1730, erguida em pedra amarelada no tradicional estilo da região. Fomos alojados em um dos cinco únicos aposentos e desfizemos as malas imaginando o que nos aguardaria no jantar. Ebrington Arms é considerado o segundo melhor “gastro pub” inglês fora de Londres. Na mesa do quarto, a indispensável chaleira elétrica e uma seleção de chás.

Quando descemos, por volta das sete da noite, os dois pequenos salões, ambos com lareira, estavam lotados de famílias de veranistas, provavelmente de Londres ou alguma outra cidade grande, os atuais proprietários de diversas das antigas casas rurais dos arredores. No balcão do bar, adornado com reluzentes torneiras de latão dourado com suas placas esmaltadas reproduzindo as marcas das diversas ales disponíveis na casa, fazendeiros refaziam-se da labuta do dia bebendo generosas pints do líquido dourado. Ales são as típicas cervejas inglesas, Marcus havia me ensinado alguns dias antes em Londres. Ao contrário das lagers, leves, claras e amargas como as cervejas mais populares do Brasil, as ales são mais douradas, menos amargas, ligeiramente doces e mais encorpadas. As muitas centenas de marcas regionais exibem cada uma sua própria combinação de aromas e sabores que misturam frutas e ervas em infinitas harmonizações. Os barris de metal ficam, em geral, alojados no subsolo do pub, e ligados por tubulação de metal às torneiras de onde sai a cerveja na exata temperatura do andar de baixo. O fato de chegarem frias, mas não geladas a ponto de anestesiar o paladar, permite que, em qualquer estação do ano, seja possível apreciar em profundidade cada nota de seus sabores.

Os homens em torno do balcão muito provavelmente não estavam atentos a essas sutilezas. Eram, vim a saber depois, quase todos fazendeiros ou trabalhadores das pequenas propriedades rurais em redor, que vinham bater papo e relaxar depois de cada dia de trabalho pesado. Animado depois de descer uma primeira pint (caneca de cerca de 600 ml),  puxei Suely comigo para o balcão. Pedimos nossa segunda caneca e entramos na conversa. Charlie, um fazendeiro mais ou menos da minha idade, a cor vermelha do rosto queimado de sol realçada pela cerveja, engatou falação. E, claro, acabamos falando sobre o Brasil. Como era de se esperar, os conhecimentos dele sobre nós não iam muito além do futebol, este assunto que derrete a cerimônia em qualquer lugar do mundo, mais ainda na Inglaterra.

Pouco mais tarde, de volta à nossa mesa, resolvi encarar o “prato do camponês”, uma reforçada seleção de linguiças, queijos, pão preto, feijão e batatas assadas. Veio na quantidade ideal para quem tivesse passado o dia ordenhando vacas, lavando o curral, arando o campo e consertando cercas. Para mim era bem além do necessário. Apesar de meu empenho, não dei conta de tudo.

English breakfast
Na manhã seguinte iríamos conhecer as cidadezinhas e vilas centenárias dos arredores. Antes, porém, um típico English breakfast: mais linguiças, feijão doce, tomates assados, queijos, ovos mexidos, pães rústicos de vários tipos, manteiga, leite, café e geleias variadas. E chá com adoçante, para não perder a linha. O gerente do turno da manhã era Johnny Corn. Parecia-se com aquilo que na minha imaginação seria um típico inglês do interior: ruivo, robusto e bem falante. Pedimos informações sobre os melhores lugares a serem visitados nos arredores. Ele nos deu diversas dicas de vilarejos off the circuit e muniu-nos de mapas e sugestões. Aproveitei para perguntar se ele não conseguiria para mim alguns porta copos, aquelas rodelas de cartão, de algumas das marcas de cervejas da região para minha coleção. Ele ficou de providenciar.

O Land Rover série III ainda dá duro em Ebrington.
Deixando a hospedagem, nos deparamos com um velho Land Rover série III, que combinava perfeitamente com o cenário. Aliás, vimos diversos Land Rover pelas estradinhas, na maioria Defenders mas também alguns Discovery. Nenhum deles desfilava nas mãos de motoristas urbanos e suas famílias; eles pegavam no pesado, puxando carretas cheias de feno e esterco ou rebocando maquinário agrícola. Afinal, foi para isso que eles foram desenvolvidos.

Stanway House, em Santnway.
Atravessamos pastos cheios de ovelhas brancas de cabeças negras. Cotswold desenvolveu-se e tornou-se uma das áreas mais ricas da Inglaterra no século XVII graças ao comércio de lã e à florescente indústria têxtil, motor da revolução industrial. A classe média que dela surgiu encabeçou as reivindicações que enfraqueceram os poderes da nobreza e redistribuíram as forças políticas britânicas. A Revolução Gloriosa acabou por submeter a realeza ao Parlamento, no que seria a primeira democracia ocidental moderna. Atravessando os campos e bosques, volta e meia tínhamos que reduzir  a velocidade para dar passagem a famílias de perdizes e até um texugo. Seguindo o roteiro de Johnny, atingimos diversos lugarejos como Snowshill, Upper Slaughter, Lower Slaughter, Stanway e Stanton, além da própria Chippin Campdem.

Cemitério e igreja em Snowshill
Cada vila erguia-se como uma cena de aquarela do século XIX , tendo a igreja ao centro, invariavelmente com um cemitério a seu lado. A curiosidade nos levou a ficar lendo as lápides, muitas com mais de 300, 400 anos, calculando a idade com que cada morador havia ido parar naquelas vivendas da eternidade. Algumas descreviam a causa morte, tipo, “disenteria infecciosa em algum lugar da África”. As vilas menores pareciam adormecidas. Mas, por detrás dos vidros das janelas e das paredes de pedra, havia cortinas brancas, livros, vasos de plantas e brinquedos. Morava gente naquelas casas de cenário, mas era difícil ver vivalma. Um ruído leve denunciou um sacristão trancando atrás de si a porta pesada de madeira nos fundos de uma igreja, como numa cena de filme.


Casamento em Lower Slaughter.
Não, o de vestido comprido branco não é a noiva.
Em Lower Slaughter, o repicar de sinos anunciou um casamento prestes a acontecer. O noivo, jovem oficial do exército de sua majestade, foi saudado solenemente por seus companheiros de caserna antes de entrar na igreja, enquanto as madrinhas, a dama e o pajem, além do padre, aguardavam ainda a noiva, que não tardou a chegar num Rolls Royce. Minha máquina fotográfica disparando e registrando tudo.

À noite, de volta a Ebrington, Johnny entregou-me diversos porta-copos e uma toalha com a logomarca de uma ale, usada para enxugar o fundo das canecas depois de enchê-las, para não molhar o balcão. Em retribuição, ofereci-lhe uma flâmula do Fluminense Futebol Clube que sempre levo nas viagens para ocasiões como aquela, e ele pendurou-a em uma das prateleiras do pub da hospedaria. Johnny, um fã de futebol, torce pelo Stoke City, time que havia retornado havia pouco à primeira divisão inglesa. O Stoke já teve seus dias de glória quando contava em suas fileiras com o lendário Stanley Matthews, um dos maiores astros da história do futebol inglês de todos os tempos, e feito Lord pela rainha.



Johnny Corn, Sir Stanley Mattheus e a flâmula do Tricolor.
De volta ao Brasil, enviei a Johnny um e-mail comunicando que o Fluminense havia se sagrado campeão brasileiro naquele ano. Que ele, então, exibisse com orgulho aquela flâmula. Em retribuição, ele enviou-me uma foto segurando a flâmula tricolor defronte ao monumento em homenagem a Sir Stanley Matthews, na cidade de Stoke. Valeu, Johnny!